Padre ALDO MARCHESINI
Medico e Missionario Dehoniano a Quelimane (Mozambico)
Sito Ufficiale
Sabato  25-11-2017   ore  6:57    Buongiorno   IP 54.81.139.56
(Auguri a Padre Aldo per i suoi 43 anni di attività in Mozambico!)
Padre Aldo scrittore
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Racconti di Padre Aldo
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titolokB
Aldo, cugino mio!8.2
Carissima Chiara, carissimo Emme49.1
Carissimo Babbo23.2
Caro Padre Dehon622.0
Dare il nome a Dio8.3
Dove finisce il tempo12.8
FERITE A VITA - viaggio nel mondo delle fistole ve…52.8
Il povero diavolo14.9
Il seme che muore190.7
Il volto del fratello30.4
Ippocrate senza budget20.1
Kalani murima. Siediti, cuore mio238.4
L'angelo89.1
La Montagna49.7
La figlia di Sunde9.8
La mia missione in Mozambico27.8
La mia testimonianza sulla infezione da HIV AIDS19.1
Le Missioni dehoniane8.1
Lettera a Papa Benedetto XVI4.8
MULHERES CORAJOSAS - viagem no mundodas fistulas v…50.6
Missioni ad Gentes intervista9.4
O fiore notte!85.9
Obbedienza e preghiera7.1
Pa Citatu154.7
Padre Emme248.8
Parlaci della Missione5.5
Pasqua al mare ovvero «spiaggia come avventura int…23.5
Piccolo come un seme di senape276.2
Progetto -chi avrà dato un solo bicchier d'acqua3.7
Quando vuoi fare una cena12.4
Rapete14.2
Ricordi di ospedale35.9
Ricordo di Padre Agostino Gioacchino De Ruschi7.1
Ricordo di padre Emilio Bertuletti53.9
Sapore d'africa8.0
Scuola elementare di contemplazione10.5
Seconda vertebra cervicale136.9
Storie del vecchio abate185.9
Terra Santa34.4
Un medico in missione191.9
Viaggio a Mocuba124.4
Vieni e vedi222.0
A Montanha (in lingua portoghese)52.1
Segunda Vértebra Cervical (in lingua portoghese)132.5
Poesie di Padre Aldo
(Titoli in ordine alfabetico)
titolokB
Addio, domani, amici, vado via1.0
Attraversai di notte il fiume asciutto1.4
Cero che brilli sopra il mio altare1.3
Cittadino del mondo1.6
Foglie secche, sollevate dal vento1.6
Gesù e la luna4.4
I baobab avevano le foglie!1.7
Il cimitero di Milevane1.3
In silenzio brucia la candela1.1
L'albero che prega0.7
La piazza1.4
Mentre il cavallo, lento, camminava1.4
Notte ti chiedo lasciati pregare0.9
O fiore notte1.0
O quarto di luna calante1.8
Per voi, sorelle stelle, esiste il tempo?1.4
Poesie di Songo5.3
Sognavo che avevo le ali e volavo1.1
Stavo sul tetto1.1
Tamburi lontano1.1
Vento caldo del Sud1.5

torna agli elenchi degli scritti

A Montanha
Ao meu irmão André,
com reconhecimento
por me ter sugerido
esta composição.

1




Começo apresentando o primeiro personagem.
Chamá-lo-ei de Eu, sim, mesmo assim, Eu, com letra maiúscula. Deveis saber que Eu viveu
muitos anos, antes da aventura que estou para vos contar. Era uma pessoa activa, sempre em
movimento. Quando lhe aconteceu parar e olhar para trás, fez uma descoberta inesperada:
parecia-lhe estar vivo há uma eternidade! Viver era uma coisa tão bela! Teria gostado de
continuar ainda por longo tempo, mas descobria com satisfação que tinha alcançado a saciedade,
e que, se lhe acontecesse dever terminar o seu mandato sobre a terra, não lhe pesaria demais.
Talvez, porém, seja melhor explicar já como foi que chegou a essa conclusão.
Aconteceram-lhe três coisas inesperadas, que o situaram diante da morte em pessoa.
Até então, Eu estava convencido que pensava na morte como o deveria fazer uma pessoa
adulta, que a não cancela dos seus pensamentos e que, até pelo contrário, a considera com
grande paz interior. O seu relacionamento com ela era, na sua consciência, totalmente pacífico e
racional.
Quando, porém, pela primeira vez se encontrou de improviso na antecâmara da morte, deu-se
conta de que uma coisa é pensar na morte em geral, outra coisa é pensar na própria morte,
especialmente quando ela nos está diante. Foi, porém, uma experiência relâmpago, passageira,
porque o perigo real de morrer durou poucas horas. Sentia-se, depois disso, como uma pessoa
que pudera “tocar” na morte, todavia a experiência tinha sido demasiado breve, para conseguir
fazer tesouro daquele episódio, explorando os seus meandros.
A segunda vez foi a decisiva. Descobriu que o comboio da sua vida se tinha desviado do carril
principal e corria já, directamente, em direcção ao depósito! Não sabia a que distância se
encontrava. Sabia, porém, que não havia mais cruzamentos ou desvios até à chegada.
Eu começou a pensar sistematicamente na sua morte. Tornava-se-lhe claro, ter , até então,
pensado na morte como numa coisa que acontece aos outros. Desta vez, porém, tratava-se da
sua, que já lhe estava diante e que podia fitar nos olhos. Só então se deu conta de que o morrer
era humilhante. Como quando nos encontramos em grupo e, de improviso, nos sentimos chamar
pelo nome, para nos fazer sair, deixando aí todos os outros, sem explicação nenhuma.
Abandonar tudo. Não tanto as próprias coisas, mas o próprio estar no mundo como cidadão do
mundo. Eu devia devolver a vida, devia sair do mundo, daquele mundo que tinha contribuído para
formar. Devia depor todas as suas obras, tudo o que tinha construído com as suas mãos, todo o
bem que tinha feito. Sim, também todo o bem que tinha feito. Tinha sido habituado a pensar que
as próprias obras boas, pelo menos essas, o seguiriam na morte.
Não o dizia Jesus também, no Evangelho? Acumulai tesouros no reino dos céus, onde ao ladrões
não roubam e a traça não consome. Agora compreendia, dolorosamente, que não era para ser
entendido à letra. Como deixava no mundo o mal que tinha cometido, os erros, e as faltas de que
se envergonhava, com um gesto silencioso mas inexorável, a morte lhe estendia a mão para o
fazer entregar também todo o bem!
Um profundo silêncio o envolveu: era duro deveras!
A morte não lhe exigia pressa. Esperava paciente, com a mão estendida. Eu sorriu à morte.
Compreendeu que era gentil com ele. Dava-lhe a oportunidade de entregar todo o bem
espontânea e livremente, dava-lhe tempo para pensar e fazer uma escolha. Entregar livremente
era muito melhor que ser roubado sem defesa possível, no momento supremo.
Eu percebia que assim o teria feito. Pedia à morte apenas um pouco de paciência, para se poder
recolher no silêncio de tudo e tomar nas duas mãos a sua liberdade. No fundo não lhe pedia
senão a possibilidade de se sentir seguro de ser livre.
A mesma morte, agora, lhe sorria.
Eu entregou-lhe tudo!

Uma luz interior o envolveu: alcançara a liberdade para aceitar a suprema humilhação de morrer,
e agora, que o tinha feito, compreendera que só depois de ter aceite, se tinha tornado
verdadeiramente livre.
A liberdade que reinava nele, depois da sua entrega à humiliação de morrer, era feita da mesma
massa de que era feito o mundo, o ser que era todo o mundo. Era uma experiência cósmica. O
morrer, isso também, fazia parte do ser!
A esse ponto, humilde e livre, Eu olhou o seu passado. Tinha vivido durante um tempo que lhe
parecia interminável. Vivera com toda a força e decisão do seu coração, não via vazios. Estava
contente por ter podido viver tão plenamente e sem pôr limite algum. Estava saciado de vida. Não
tinha recriminações. Seria lindo viver ainda, mas a saciedade estava alcançada e não seria mais
triste, para si, parar de viver.
A terceira coisa que lhe aconteceu foi uma espécie de acidente de percurso na viagem rumo ao
ponto final. O tempo estava a correr, com a sua habitual lentidão.. Eu sentiu uma brusca
travagem.
Olhou pela janela: tinha caído uma ponte!
Era preciso parar. Eu desceu para ver com os seus olhos a gravidade da coisa. Havia um grande
vai e vem e ninguém sabia dar informações seguras. Para consertar a ponte seria necessário
bastante tempo. Devia-se tomar em consideração a possibilidade de parar e acabar a viagem aí.
Ter-se-ia de esperar algum tempo, para ver como as coisas iriam correr. Se a corrida não pudesse
recomeçar, a viagem devia necessariamente acabar aí.
Eu olhou em redor: era um lugar lindo! Eu olhou para dentro de si: nada tinha mudado. A
humiliação do morrer tinha sido aceite de uma vez para sempre e a saciedade do viver era a
mesma. No que dependia dele, a viagem podia verdadeiramente acabar aí.
Por fim os trabalhos concluíram-se bastante depressa e a viagem continuou. Eu sentia-se
contente por ter compreendido a mensagem. Entendera que não era necessário chegar a
nenhum ponto final para que a viagem acabasse!





2
Nesta altura deve entrar em cena a segunda personagem. O nome melhor que me vem à mente,
é Ela. Não tanto porque seja de facto uma mulher, mas porque o seu universo interior encarna,
pelo menos aos meus olhos, o génio da feminilidade.
Numa coisa diferia radicalmente de Eu: Ela tinha morrido deveras!
Mas Eu convencia-se sempre mais de que tal diferença não era em nada radical. A morte real não
era tão importante: ambos, Eu e Ela, já a tinham conhecido. Demoradamente tinham conversado
enquanto ambos estavam em vida, e agora que a morte os separara, davam conta de que, pelo
contrário, ela mesmo os unira ainda mais.
Ela morrera, sim, porém viveram durante muitos anos em amizade e tinham conversado infinitas
vezes. A verdade que tinham trocado, os segredos que se tinham revelado reciprocamente, a
espera dos eventos, que amiúde os tinha feito encontrar, os tinham unido e agora, cada um do
seu lado da morte, trazia em si esses colóquios e continuavam a conversar, ela além e ele aquém.
Eram palavras entradas para sempre na eternidade, e podiam ser repercorridas e revividas em
qualquer momento, quer no presente quer no passado e – porque não? – mesmo no futuro. Ditas
no passado eram vivas no presente e valiam desde já, para sempre.
A sua verdade podia ser representada pelo símbolo da montanha, à qual frequentemente ambos
faziam alusão. A montanha era a montanha do mundo futuro, onde estava construída a Jerusalém
celeste e onde se encontrava o ponto de chegada, tão desejado.
Quem começou, pela primeira vez, a falar da montanha foi Ela.
- Sabes, - dizia-lhe – imagino ficar a contemplar o nosso horizonte. Durante quantos anos o
sondámos, de quantas maneiras o modelámos, durante quanto tempo lhe corremos ao encontro!
O horizonte era o nosso futuro. Lembras os sonhos da nossa juventude, as aspirações, os
desejos, a oração feita a Deus para percebermos, sermos iluminados, guiados para não
fazermos erros ao escolher? Lembras-te de que corríamos juntos, um à frente e outro atrás,
depois o outro à frente e um atrás? O horizonte continuava a afastar-se, sempre mais, à nossa
frente!
Ora bem, Eu, parece-me agora distinguir que, para além da extrema linha do horizonte, se
comece a ver algo de novo. Uma espécie de forma azul que se vai definindo sempre mais e que
penso já ter percebido que seja uma montanha, rumo à qual devemos caminhar com desejo e
esperança, porque é a Montanha de Deus, onde Ele nos espera para sempre. -
Seguiu-se um silêncio.
- Creio que o seu sair do horizonte seja uma coisa importante e belíssima, que espero encherá
de júbilo o nosso caminhar ao encontro dela. Não é já o horizonte que nos faz correr, com o seu
misterioso e indefinido conteúdo. Agora é a Montanha que nos anima, com a sua presença e a
sua imponente figura, a sua altitude, a sua fascinante e secreta beleza. Parece-me que nos
chame, nos sorria e nos convide a subir para ela. A nossa meta começa a mostrar-se! -



***** ******** *****
3



Tocou o telefone. Era Ela.
- Eu, rogo-te, vem ter comigo. Estou no hospital, estou mal! -
Eu desceu do táxi que tinha chamado, perguntou onde era o quarto e subiu as escadas. Bateu à
porta e entrou. Ela estava apoiada sobre três almofadas, transpirada. Custava-lhe respirar. Foi ao
pé dela e lhe tomou a mão nas suas. Olharam-se em silêncio, aquele silêncio ao qual a longa
amizade tinha ensinado a dizer mais do que as palavras.
- Queria cumprimentar-te antes de partir. Estou no sopé da Montanha. Esperava este momento
desde há bom tempo. Queria começar a subir com o conforto de Jesus, em sua companhia.
Peço-te: manda vir aqui um sacerdote que me dê a unção dos enfermos. -
Quando Eu voltou em companhia do capelão do hospital, este cumprimentou afavelmente Ela e
explicou-lhe que existiam várias fórmulas de oração final, algumas para pedir a presença do
Senhor no momento supremo para acolher a alma entre os seus braços e outras para pedir a cura
e a força para viver ainda, se isso fosse a vontade de Deus. Sem esperar resposta, disse:
- Seria minha intenção pedir para si a cura, para continuar a viver por Ele, ainda um pouco, na
terra. Que diz? -
- Neste momento supremo o meu único desejo é o de aceitar qualquer decisão sua. Desprendi-
me de tudo!
Todos os três celebraram o sacramento com muita fé e amor. O capelão concluiu com a oração
final que tinha anunciado. Seguiu-se um silêncio prolongado, depois levantou-se, cumprimentou e
saiu.
Ela contou a Eu de que maneira a sua saúde tinha piorado de repente e tinha sido internada de
urgência. Agradeceu-lhe por ter vindo imediatamente: ”Estou contente de que tu estejas aqui.
Agora viste com os teus olhos que o meu pé tocou no sopé da montanha em companhia de Jesus.
Não importa que tudo seja adiado. Agora sei já como é que é, e estou muito satisfeita que tu
também saibas, desde já, algo! -
A força da unção e a palavra da oração ganharam a batalha e ela começou a melhorar e depois
curou-se.



4
Ela e Eu tinham uma amiga, uma irmã missionária no extremo oriente. Chamá-la-ei, para nos
entendermos, com o nome de Ana. Conheceram-se de jovens: eram quase coetâneos. Uma
sincera amizade ligava-os e quando regressava, mesmo que os intervalos fossem de bastantes
anos, faziam os possíveis para conseguirem cumprimentar-se e ficar um pouco juntos.
Ela era muito curiosa e sempre fazia um montão de perguntas, ás quais a irmã respondia com
evidente alegria. Era muito belo, para irmã Ana, ao regressar, encontrar alguém que se mostrasse
interessado pelas coisas da missão! A Ásia era de verdade um outro mundo e as conversações se
alongavam. O desejo de se verem era grande e assim havia sempre um encontro, logo, e depois
pelo menos um outro, antes da partida.
De vez em quando escreviam-se e dessa maneira o fio da relação reforçava-se e as notícias
fundamentais mantinham-se actualizadas.
Um dia chegou uma carta a Eu, na qual irmã Ana anunciava um regresso forçado, quase de
corrida. Tinha passado pouco mais de um ano da sua última partida. Comunicava que havia a
suspeita dum tumor maligno e que estava prestes a regressar para pesquisas e tratamentos. Eu
mostrou a carta a Ela e decidiram para lhe fazer uma surpresa, indo recebê-la ao aeroporto


Encontraram lá o papá, o irmão e a irmã. Deles souberam que a coisa era grave e já bastante
avançada. Ela e Eu seguiram a família, mas logo que as portas automáticas da sala das chegadas
se abriram, irmã Ana os reconheceu no único olhar dirigido aos seus e sorriu de alegria a todos,
com um largo gesto da mão. O sorriso e os olhos eram os mesmos de quando estiveram jovens
juntos, mas a doença conseguia transparecer dum rosto emagrecido e dos gestos medidos para
conter uma dor que não podia permanecer escondida por completo. Trocaram saudações e um
abraço, depois Ela e Eu se retiraram para deixarem a família sozinha.
Alguns dias mais tarde Ana deu sinal pelo telefone, informando de que fora imediatamente
internada e que os exames tinham confirmado que se tratava dum tumor maligno. Não era
possível extirpá-lo, mas tinham já iniciado a quimioterapia. Não queria render-se, queria fazer todo
o possível para continuar a viver e voltar para a missão. Seria assistida numa casa da sua
congregação, numa outra cidade. Deixou-lhes a direcção: “Vinde visitar-me, logo que possais!”
Foram, de comboio, no domingo seguinte. Partiram cedo para terem tempo de estar juntos, antes
da hora do almoço.
Irmã Ana estava na cama, pálida e branca como a neve. Sempre fora magra e agora, debaixo dos
lençóis, via-se claramente um aumento considerável do volume do abdómen. Ficou muito
contente por vê-los e contou com detalhes a história da sua doença. Fora uma coisa agressiva e
rapidíssima: não tinham passado nem sequer dois meses desde que os primeiros sintomas a
alarmaram.
- Prometi ao Senhor que faria todos os tratamentos necessários para me curar. Sinto-o como um
dever. Devo colaborar com Ele para manter o dom da vida. -
Continuaram a conversar demoradamente, mas logo que notaram que começava a ficar cansada,
levantaram-se para a cumprimentar, prometendo voltar mais adiante.
Irmã Ana deu conta do motivo da sua delicadeza e sorriu para eles mais uma vez.
- Agradeço-vos com todo o coração por terdes vindo ter comigo. Desejava-o muitíssimo e agora
estou contente, que conseguimos falar. Mas é também verdade que estou um pouco cansada e
que precisaria de ficar com os olhos fechados. Espero por vós mais uma vez, se vos for possível
… -
Poucas semanas depois, Eu recebeu um telefonema. Era uma coirmã de irmã Ana, que cuidava
dela no convento, a que Eu tinha deixado o número do seu telefone para ser informado de
qualquer novidade.
- Irmã Ana piorou e baixou à clínica universitária. –
Por coincidência Eu estava de passagem naquela cidade e foi ter com ela.
Estava numa enfermaria com quartos de duas camas e no corredor estavam o papá e a irmã.
Olharam-se sem trocar palavras: não havia mais necessidade.
- Entre, irmã Ana ficará contente de o ver. -
Estava na primeira cama ao pé da porta. A paciente da cama ao lado perguntou se deveria sair
para os deixar sós. Mas a Eu pareceu uma falta de respeito aceitar que se levantasse para sair.
- Eu, fiz tudo para poder curar-me. Estou ainda lutando. -
Quem sabe, talvez irmã Ana não se dava conta de estar prestes a morrer? A presença da outra
doente tirava-lhe a liberdade de se exprimir. A recíproca amizade era suficientemente profunda
para poder falar directamente do próximo abraço com Deus, mas percebeu que não podia dizer
palavras semelhantes naquela circunstância. Talvez irmã Ana não estivesse consciente de estar
no fim.
Disse-lhe apenas que a levaria sempre consigo, para onde quer que fosse.
Permaneceu um pouco em silêncio, segurando-lhe a mão. Um silêncio cheio do não dito, entregue
à intuição da amizade que os unia. Como esperava que o compreendesse!
Apertou-lhe a mão com força: sabia que era o adeus. Depois inclinou-se, beijou-a e lhe disse
“Ciao!”


A mesma irmã ligou-lhe três dias mais tarde.
- Ana faleceu esta noite. O funeral será depois de amanhã. -
Que amargura! Nesse mesmo dia Eu devia partir para uma longa viagem de trabalho no
estrangeiro.
- Não poderei participar, porque parto, mas estarei presente na mesma, duma outra maneira. -
No dia do funeral, Eu partia em voo. O avião estava cheio. Só havia um lugar vazio, o ao pé dele.
Sentou-se e olhou para o assento livre:
- Então, irmã Ana, quer dizer que aceitaste que te leve comigo? -


5
“Caro Eu – dizia a carta – a filha da minha irmã está grave e pediu para que a vá cumprimentar.
Como sabes, vivem numa cidade longínqua. Permanecerei o tempo necessário.
Com afecto.
Ela”
De tempo, passou um pouco demais. Eu teria querido saber notícias, mas Ela não tinha deixado
nem o endereço exacto, nem o telefone da sua família. Naqueles anos não existiam ainda os
celulares.
Esperou.
Passaram meses, até que, um dia uma conhecida lhe entregou em mão uma carta.
-Ela pediu-me para lhe levar esta carta. -
“Caro Eu, estou subindo à Montanha. Esse tumor que levara a minha sobrinha para o fim da
vida, tinha-o também eu, sem o saber. O acompanhá-la na sua doença abriu-me os olhos. Foi a
minha sobrinha a impelir-me para que me submetesse a exames, quando lhe confidenciei as
minhas dúvidas. Exames de todos os tipos, TAC incluída. Depois, no fim, a resposta: estado
inoperável.
Químio e radioterapia.
Vivo em casa da minha irmã, no quarto que foi da sua filha. Pediu-me insistentemente para que
ficasse ao pé dela. Quer tomar conta de mim até ao fim. Seu marido também, tão querido, insistiu
e eu aceitei.
Devo sempre ficar de cama, porque se manifestou uma metástase no colo do fémur. O primeiro
ciclo de radioterapia acabou e agora levam-me de ambulância ao hospital só nos dias da químio.
Desculpa-me, Eu, por te não ter escrito antes. Se me perdoares por este silêncio inoportuno,
deixa-mo saber, vindo visitar-me! Minha irmã e meu cunhado também gostariam.
Eu, lembras-te quantas vezes falámos juntos sobre a morte? Acompanhaste-me, daquela vez, ao
dar o primeiro passo no sopé da Montanha, quando recebi a unção dos enfermos. Agora já subi
bastante para cima e posso ver muito mais horizonte cá de cima.
Virás? Ponho-te, aqui em baixo, a direcção e o telefone de casa.
Com todo o afecto da nossa amizade!
Ela.”


6

Eu conseguiu arrumar as coisas de maneira a chegar lá alguns dias depois.
A irmã acolheu-o na porta e o informou brevemente sobre o estado avançado da doença e sobre a
terapia, que a esse ponto era apenas paliativa para controlar sobretudo a dor crónica do cancro.
Acompanhou-o ao pé dela e deixou-os sozinhos para que se sentissem plenamente à vontade.
Beijaram-se em silêncio, depois Eu sentou-se ao lado da cama.
- Como foste gentil, Eu, chegando tão cedo a visitar-me, vindo de tão longe. Esperei este
encontro com muito desejo. Sei que me estou aproximando, cada dia mais depressa, da minha
morte. Examinámo-la muito, quando estava ainda longe, e ambos pensávamos nela quase como
numa amiga, desde que entrara, embora só de passagem, nas nossas vidas. Agora está aqui,
sinto-a como se me estivesse ao lado, quase como tu.
Como te escrevi, a imagem da Montanha aparece-me a mais feliz, seja porque subir as suas
ladeiras é cansativo, seja porque me faz entender que vou rumo a uma meta, o seu cimo, onde
está Deus. Encontrar um sentido nas coisas é de extraordinária importância e dá força de acolher
qualquer sacrifício e sofrimento, porque se vê que vale a pena. Há uma outra coisa bonita, Eu, ao
subir as suas encostas: o horizonte alarga-se sempre mais! -
- Sim, Ela, diz-me algo sobre esse horizonte mais amplo! -
- Lembras-te como de jovens esse era algo que estava à frente e longínquo e que nos atraía,
impelindo-nos a correr-lhe ao encontro? Era lindo correr: mais corríamos, mais se afastava,
atraindo-nos ainda mais, com a sua fascinação de sempre mais novidades e mistérios para
descobrir. Parece-me compreender que agora o horizonte esteja alargando o seu significado. Já
não é apenas a meta, rumo à qual estamos a correr. Está se tornando a meta que abraça não só
o nosso futuro, mas também todo o nosso passado. A subida à montanha alarga a consciência ao
tudo inteiro da nossa vida: passado, futuro e presente juntam-se numa unidade. A mesma verdade
oferece-se aos olhos do nosso espírito, meu e teu, e agora quereria abrir-te o coração para te
pedir que me ajudes a compreender o significado das coisas e a pôr em prática essa
compreensão. -
- De boa vontade, Ela! Sinto-me, todavia, muito pequeno. Pedirei a Deus para me emprestar os
seus ouvidos! -
- Como tens razão! Esta è a montanha de Deus, e é nele que o tudo revela o seu significado. -
Ela ficou calada. Precisava de um tempo de silêncio: como de jovens, era o silêncio o que se
comunicavam em primeiro lugar. Era necessário para unir as suas almas. Só depois, as palavras
teriam a liberdade de transportar a verdade que tinham dentro.
- O que vejo de horizonte, dessa altura, é o meu vivido. Abraço-o num olhar único e posso ao
mesmo tempo distingui-lo nos pormenores. Vejo muitas coisas que agora queria não ter feito.
Dou-me conta de inumeráveis erros que cometi, de tantos maus exemplos que dei e que receio
tenham constituído um atropelo para quem assistiu. Isto pesa-me na consciência, mesmo que
saiba de ter sido perdoada por Deus. A coisa que queria dizer-te, Eu, é que o perdão de Deus não
me basta. Quereria uma libertação mais profunda … -
- Porque não aproveitas da memória, que te traz o passado para o presente, para o poder tratar
de presente e não só de passado? Pára de ser um passado e torna-se um presente, e como tal
podes modificá-lo. -
- Deixa-me experimentar. Por exemplo, voltam-me continuamente à mente as inúmeras vezes
que perdi a paciência. Começava com boa vontade, depois, quando a insistência ou o
descaramento superavam o limiar da minha suportação, rebentava e falava duramente, com voz
alterada. Quantas vezes também virei as costas de repente e afastei-me daí, porque não
aguentava mais! -


- Quando me confias esses comportamentos de que te envergonhas, e eu os compreendo e não
te julgo negativamente, mas, pelo contrário, te admiro pela tua humildade em mos contar, sentes-
te aliviada? -
- Sim, Eu, faz-me bem o teu ficar do meu lado. -
- Imagina teres diante de ti as pessoas ás quais faltaste de respeito perdendo a paciência. Se tu
lhes pedisses desculpa a elas, não te perdoariam? -
- Penso que sim. -
- Isso dar-te-ia paz? -
- Sim, è o que quereria. -
-Estão diante de ti, Ela. Pede-lhes perdão, humildemente. -
- Como queria que me perdoásseis! -
- Deixa que lhes empreste a minha voz. Não te amargures mais, Ela. Façamos a paz. -
Ela tomou-lhes as mãos e reteve-as nas suas …


7

- Há uma outra coisa, Eu, que vi no meu passado e que me faz sofrer. É o que teria tido ocasião
de fazer e deixei de fazer. Lembras-te do velho “confiteor”? Reconhecemos ter pecado muito em
pensamentos palavras, actos e omissões. Dir-te-ei a verdade: das omissões nunca me importei
seriamente. Penso ter sempre vivido sem nunca me concentrar nelas. Agora estou sentada na
encosta da montanha e olho para baixo: quantas são as minhas omissões, Eu! Descubro sempre
mais alguma. Dir-te-ei que que não aparecem tanto como culpas ou pecado. Não, dão-me um
sentimento de pena, de ocasião perdida para sempre, cujo vazio é-me muito doloroso.
É uma experiência, não saberia como dizer: incapacidade, impedimento, impossibilidade a
remediar! Eu, a minha vida está acabando, não me ficam mais ocasiões, e isso dá-me um
sentimento de impotência e de desconforto. É possível, pergunto-me, que não haja um remédio? -
- Deve haver, sim! Nunca reflecti sobre isso, mas creio que se começarmos a trocar ideias,
alguma luz acender-se-á. Bem, assim para começar, cita alguns exemplos de omissão que te dão
desconforto ao pensar neles. -
- Ah, de exemplos tenho um saco! Pessoas que tive o cuidado de evitar por temor de que me
fizessem perder tempo. Telefonemas não feitos, cartas não escritas. E depois, ajudas não dadas,
conversações evitadas para não dever enfrentar temas dolorosos ou embaraçadores, explicações
não fornecidas, silêncios egoístas, ou soberbos, ou de má disposição. Fadigas evitadas para não
me deixar levar para compromissos que me teriam engajado ou ocupado. Sabes, como quando se
diz: não te dou um dedo, porque receio que a seguir te deva dar a mão, e depois o braço e tudo o
resto. -
- Não é fácil encontrar um remédio. O não feito fica não feito, o tempo não volta atrás, tens
razão. Todavia o passado não está totalmente acabado, porque vive na nossa memória. Há uma
maneira de reevocar que dá grande felicidade. Por exemplo, é belo contar coisas que nos
aconteceram. Parece quase vivê-las uma segunda vez. Antes, dir-te-ei, às vezes cedo à tentação
de embelezar a realidade vivida, acrescentando algum pormenor que, de certa maneira, a
completa. Faço-o com tanto gosto que me convenço quase que os meus retoques possam, com
certeza, senão mudar os factos, pelo menos editá-los de novo duma forma mais bela e poética ou
gratificante. -


- Gosto desta tua observação, porque me confirma que, o que sempre achei, seja uma verdade.
A memória tem o poder real de fazer voltar o passado a tal ponto que o podemos, de certa
maneira, mudar ou, como tu dizes, torná-lo mais belo.
Revivendo a acção com a memória, podemo-la parar, mandá-la voltar ao início e fazê-la acontecer
de novo, com as correcções que quereríamos aplicar para tirar falhas, maldades, erros e assim
por diante, ou enriquecê-la com uma injecção de um suplemento de amor.
A propósito disso, Eu, quero-te confidenciar um segredo que teria gostado de te revelar, mas que
nunca surgiu a ocasião para tal. Numa meditação de retiro espiritual ouvi falar do exame de
consciência não como a procura dos pecados cometidos, mas como e revisitação do vivido desse
dia, para o poder corrigir diante de Deus, acrescentando-lhe intenção de amor, aceitando com um
sorriso o que tínhamos recusado com repugnância.
Gostei tanto da ideia que, desde então, procuro sempre fazer este tipo de exame de consciência,
todas as noites, na oração do fecho do dia.
Não me tinha passado pela mente que o pudesse fazer também para todas as omissões que
agora descubro como um peso. -
- Bem, Ela! É um recurso extraordinário, este de reeditar o vivido e corrigi-lo, emendá-lo,
enriquecê-lo, torná-lo pronto para o poder oferecer a Deus. -
- Assim mesmo: para dar prazer a Deus! Devo evitar procurar a purificação do horizonte só com
recursos humanos, de expedientes no âmbito da psicologia. É verdade que olho e procuro
interpretar o que vejo na planície da minha vida, mas isso posso fazê-lo só porque estou trepando
a montanha, e a chegada da subida será a de ver e abraçar Deus, definitivamente. Sabes, Eu, a
espera e o desejo de abraçar o Pai alegram-me e dão sentido a tudo.
Eu creio no seu perdão e no seu amor, mas é mesmo por uma exigência de amor, que desejo
com todo o coração me purificar. Daqui os meus olhos abrem-se sobre tantas insuficiências e eu
quereria, cada dia com mais força, purificar-me, para poder gozar de o abraçar na verdade, com
coração verdadeiramente puro! -
- Estas tuas palavras, Ela, fazem-me voltar à mente aquele versículo do Benedictus, o cântico
das laudes, que nos comprometemos, há tantos anos, quando éramos jovens, de rezarmos cada
dia em comunhão, e pedir o seu cumprimento cada um para o outro:
«… juramento que fizera a Abraão nosso pai, que nos havia de conceder esta graça: de o
servirmos um dia sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos, em santidade e justiça, na sua
presença, todos os dias da nossa vida».
Digo-te, Ela, que nunca me esqueci! -
- Sim, Eu, é o que desejo: podê-lo servir sem temor, livre das mãos dos nossos inimigos. No
fundo estes pesos que levo comigo ao olhar para baixo, para a minha vida, o desgosto e a
amargura por tudo o que livremente deixei de fazer, vejo-os um pouco como os inimigos de cujas
mãos desejo ser libertada.
Consola-me o juramento do Senhor, de me conceder, um dia, tal liberdade. A este ponto da
subida, Eu, o dia em que o servirei sem temor não pode ser senão este de hoje! Livre, não me
sinto ainda, Eu, e isto faz-me sofrer, porque aqueles “todos os dias da nossa vida” a este ponto
são apenas aqueles, poucos, que ainda me ficam por viver. -
- De acordo, Ela, aqueles “todos os dias da nossa vida” são apenas aqueles que te ficam por
viver, mas o cântico fala apenas de “todos”, não de muitos, nem de poucos. Alegra-te, porque o
juramento está-se cumprindo: aquele punhado de dias que te ficam são, de facto, “todos os dias
da tua vida”. O facto que ficaram poucos não o deves sentir como um limite, mas como a
esperança de conseguir “obedecer”, vivendo-os todos, nenhum excluído, em santidade e justiça
na sua presença! -


- Bem, Eu, começarei a ir em sentido contrário a partir do presente. Sim, é mais fácil e mais
ordenado reviver o passado recolhendo-o como um fio de lã. Começando do ponto livre que é o
presente. -
Ela fechou os olhos, para se concentrar mais facilmente.
- Sabes, Eu, que me está acontecendo uma coisa esquisita? Estava procurando evidenciar
omissões, preparando-me para pedir desculpas, dirigidas àquele próximo que tinha sido, de certa
maneira, defraudado por mim. Pelo contrário, impõe-se com força à consciência um pecado de
omissão sem um próximo defraudado.
Mas talvez seja ainda mais grave, porque o defraudado, no fundo, é o Pai mesmo! Tenho diante
de mim todo o bem que me foi dado viver, seja o banal das madrugadas em silêncio, seja o das
nuvens que navegam como navios silenciosos no céu, ou o do trafego ruidoso da cidade, ou do
som dos meus passos nos atalhos de terra batida no campo sem barulho, ou do varredor que
limpa a rua debaixo do meu olhar indiferente, enquanto espero pelo autocarro … Descubro toda a
verdade que entrou em mim nos anos de estudo e depois nos da profissão, as correcções dos
meus pais, dos professores, os exemplos de bondade simples e insignificante das pessoas
humildes com as quais cada dia me cruzava, como a vendedora de hortaliça do mercado, o
vendedor de jornais que fazia sinal de que já estava à venda o último número de palavras
cruzadas, o carteiro que tocava duas vezes quando chegava a carta de que estava à espera, a
sacristã que vinha ao meu encontro, sorridente, a primeira vez que entrava na igreja depois das
férias do verão, e assim por diante.
Tenho diante de mim um panorama infinito que agora, da montanha, me é concedido distinguir e
reconhecer …
Ora bem, Eu, por tudo isso não só nunca dei graças a Deus, mas, tantas vezes, nem dei conta
dele. Quanto bem não reconhecido, quanta felicidade desperdiçada.! -
- Força, Ela! È o momento bendito de recolher no presente todo este cúmulo enorme de bem
que te foi dado e te atravessou e de gozar dele com júbilo, de o saborear, de o reviver a passo
lento, de te apoderar dele interiorizando-o, até sentir-te saciada e, a esse ponto, de oferecer tudo
ao Pai com infinita gratidão! -
- Que querido que és, Eu! Dá-me a mão para me fazer passar, através dela, a tua solidariedade
e a tua ajuda. Com a minha quero-te abrir o segredo que ficara escondido aos olhos do meu
coração durante estes anos todos. -
…….




8


Ouviram bater à porta. Era a irmã de Ela que trazia uma bandeja com chá e bolachas.
- Desculpai-me se vos interrompo, mas é a hora do chá, e é preciso aproveitar destas pequenas
alegrias da vida, para nos alegrarmos com elas e agradecermos a Deus, em companhia de quem
vive connosco! -

O aparecimento quase repentino da irmã e o seu chegar no momento que mais justo não podia
ser, alegrou ambos. Eu e Ela disseram-lhe que estavam mesmo falando das infinitas ocasiões de
regozijo e agradecimento, que todos nós recebemos cada dia, mas que deixamos tão
frequentemente cair, perdendo tanta riqueza que nos chega gratuitamente
- Que alegria me dais! – disse a irmã – Procurava a maneira para mostrar o contentamento que
me causou a tua visita, caro Eu. Porque não levo uma chávena de chá e duas bolachinhas,
quando chegar a hora tradicional? Dito e feito! Assim agora estamos contentes de ficarmos juntos
e de conversarmos um pouco. Devem ter passado três ou quatro anos desde a última vez que nos
encontrámos durante as férias. -
- É verdade, Joana! Fizeste bem entrar. partilhemos um pouco da nossa vida nestes últimos
anos. -
…….
9



- Agradeço-te, Eu, pela ajuda que me deste para considerar o passado, assim como o vejo do
alto da montanha. A tua visita acendeu de novo aquela aspiração jubilosa de correr ao encontro
do horizonte, como fazíamos na juventude. Disse-te há pouco que, enquanto jovens, o horizonte
era só o que nos estava diante. Agora que estou subindo a Montanha, o horizonte alargou-se para
abraçar também o passado. Não digo que pudemos esgotar a corrida para trás, mas agora, Eu,
quereria renovar aquele júbilo antigo de correr para o futuro! -
- Estou de acordo, Ela. Começa tu, que te encontras mais acima. O que é que atravessa o teu
coração quando olhas para o cimo? -
- Até há pouco, antes que tu chegasses, não te escondo que o pensamento do futuro estava
enrijecido pela lembrança do passado. Aqueles pesos, de que te confiei a existência, travavam-me
e exigiam uma reinterpretação e um desfecho. Ora bem, as tuas palavras e o nosso partilhar
desfizeram como que um nó que me atava, e agora sinto-me disposta a olhar com simplicidade
para o horizonte que me fica diante. Para ser concreta, o peso do passado apagava um pouco a
alegria de correr para o Pai, mas agora não mais!
O que é que atravessa o meu coração quando olho para o cimo? Esta foi a tua pergunta. O meu
coração é atravessado pelo desejo de Deus. Enquanto o centro do meu olhar está sintonizado no
desejo, sinto-me ainda à vontade, porque sei o que quer dizer desejar e como seja lindo o podê-lo
fazer. Se, porém, dou um passo para a frente e considero o termo do meu desejo, isto é, o Pai,
entro numa região do espírito que não tem fisionomia definida. Se quiser concentrar-me na sua
Presença, estou consciente que não posso confundir Deus, o Pai, com a imagem que tenho dele.
Tenho o grande desejo de o ver, porém sei que este tempo não é o da visão, mas o do amor. Por
isso procuro amá-lo. -
- Gostei da tua afirmação de que este tempo não é o da visão, mas o do amor e portanto o teu
desejo de Deus passa do querer vê-lo, para o querer amar, antes, para o amar de facto. -
- É mesmo assim, Eu. Esta tensão de amor, que o desejo de Deus é, vejo-a bem representada
pela Montanha que estou escalando. A Montanha convida-me silenciosamente para o cimo, e o
cimo, coincide, no fundo, com o próprio Deus. Não estou ainda no cimo, sei que só lá em cima
terminará a minha viagem. O facto de subir, em si, alimenta o meu desejo e isso parece-me uma
imagem apropriada da realidade que estou vivendo nestes dias.
Sabes porque subo, Eu? -
- Para chegar ao cimo! -
- Exacto, para chegar ao cimo. Sim é o cimo que dá sentido ao subir. Eu quero chegar ao cimo –
desejo chegar ao cimo, quero encontrar o Pai! Quero-o encontrar porque o amo e o amá-lo
assume a forma do subir.
Vê: não è fácil criar uma imagem do amar. Como é possível significar com uma imagem sensível o
amar? Ao passo que, pelo contrário, vem-me espontâneo interpretar a realidade do subir, que é
bem mais do que uma imagem, como a expressão natural do amar. É muito mais fácil interpretar a
realidade do subir como amar, do que imaginar o amar como um subir. -
- Antes, o facto de subir, depois a compreensão de que o subir coincide com o amar. -
- Antes a Presença, depois o compreender de que a Presença alimenta o desejo de ver, depois
a compreensão – se quiseres – dolorosa, de que o ver não é coisa do presente. Depois a
consolação que, mesmo que o ver não seja coisa do presente, faz porém parte do presente o
desejo de ver. E este desejo, Eu, é para mim fonte de júbilo interior. O desejo é algo que
permanece, continua, acompanha sempre. Tudo isto é para mim uma coisa só com o subir a
Montanha. O subir une os dois aspectos: o de não ter chegado ainda ao cimo e da felicidade que
se saboreia em forma de desejo de lá chegar. -
- Disseste há pouco: não posso confundir Deus, o Pai, com a sua imagem. Faz-me lembrar a
reflexão e o testemunho de tantos homens e tantas mulheres de oração, segundo os quais, para
ficar em companhia do Pai na verdade, deve-se cancelar qualquer tentativa de se fazerem uma
imagem dele, de o definirmos, de o circunscrevermos, de o envolvermos em conceitos, em
pensamentos humanos. Fazermo-nos uma imagem quereria dizer não o adorarmos em espírito e
verdade. Nenhuma imagem pode ser verídica. -
- É mesmo por isso que a descrição da nuvem do não conhecimento, dessa escuridão que, ao
mesmo tempo revela e esconde Deus ,se difundiu tão largamente nas leituras espirituais dos
nossos dias.
Quero confiar-te que, quando vim para assistir a minha sobrinha, tinha trazido comigo o famoso
livrinho “A nuvem do não conhecimento”, daquele anónimo monge inglês de mil e trezentos para o
ler, finalmente, com uma certa paz. Há tanto tempo que o possuía! Bem, consegui lê-lo com muita
alegria. Fez-me muito bem e pacificou-me, fazendo-me compreender que para ficar com o Pai não
é preciso fazer nenhum esforço de imaginação, não há necessidade de estudar nem de se cansar,
porque nele vivemos, nos movemos e somos, quer pensemos nisso quer não. Estamos sempre na
sua presença! Quando me lembro disso, a única coisa que faço é armar o meu arco e lançar-lhe
uma seta de amor. -
Ela calou-se um momento, como para pensar melhor.
- Tudo isso, enquanto assistia a minha sobrinha nas últimas semanas de vida. Sentia-me ainda
bem e não tinha começado a subir a Montanha. Agora que, depois de tanta subida, começo a
entrever o cimo, enquanto estou a falar contigo, pergunto-me se algo não mudou, no meu atirar
setas de amor para o interior da nuvem da sua presença. -
- Parece-me compreender-te, Ela. Uma coisa é a sua presença no meio da viagem, outra é a
sua presença já quase à chegada. Creio que se poderia chamar “efeito vizinhança”. Não o vemos
ainda, mas o seu aproximar-se físico torna mais aguda a percepção da sua presença, penso. -
- Tens razão, Eu, é mesmo assim. Não o vejo ainda, mas começo a sentir o seu perfume.
Sabes, Eu, descobri que no mundo do espírito existem experiências interiores que se podem
descrever como que equivalentes às físicas. O perfume, por exemplo. Das sensações dos nossos
cinco sentidos, o perfume é a que toca mais a esfera emocional. Fala uma linguagem directa, que
não passa pela mente, mas vai directa ao coração. Quando era menina, lembro-me do meu
primeiro entusiasmo amoroso, de algumas semanas.
Estávamos em Junho e na nossa casa houve uma festa e nos regalaram ramos de lírios, que
encheram os quartos do seu inebriante perfume. Houve, na paróquia, as primeiras comunhões e
durante bastantes dias também a igreja cheirava intensamente a lírios. O meu coração
enamorado ligou para sempre a doçura da primeira experiência de amor ao do perfume dos lírios.
Ainda hoje, quando sinto o seu perfume, as lembranças evocam essa doçura e felicidade. -


- Agradeço-te, Ela, por me teres confiado esse segredo. A comparação com o perfume dos lírios
e tudo o que ele evoca, em relação à felicidade do amar, abre-me um horizonte de compreensão
nova no caminho da nossa vida em direcção a Deus. -
Ficaram em silêncio longamente, como os acostumara a sua antiga amizade. Continuar a falar
não podia acrescentar mais nada. O perfume exigia apenas ser gozado …
Tinha anoitecido e já era a hora do jantar. A irmã bateu à porta e Eu passou à sala, enquanto
Joana preparava Ela para a meter na cadeira de rodas e ir para a mesa com todos.


9


Chegou o momento de se levantar e partir. Tanto Ela como Eu estavam conscientes de que podia
ser a última vez que se viam aqui na terra. Não havia véu de tristeza nas suas almas. De há muito
tinham alcançado a liberdade interior e a presença recíproca era ocasião de alegria. A fonte da
alegria era outra: a comunhão de amizade que une as pessoas e as torna sempre mais
verdadeiras, sem possessões.
Joana, a irmã, ajudou como sempre Ela a se arrumar na cama e a fazer-lhe companhia durante
um pouco de tempo.
- Como me fez bem, Joana, a visita de Eu! Pude abrir-lhe o coração sobre os pensamentos e os
sentimentos que me atravessam nestes dias que sinto serem já os últimos aqui na terra. Queria
confiar-te que não os vivo na tristeza, mas no desejo do encontro com Deus. Falámos dos pesos
que o passado ainda tinha sobre o meu coração, e resserenei completamente. A coisa mais bela,
porém, foi o falarmos do que me espera, do encontro com o Pai no fim da subida. Depois, Joana,
acabámos as palavras e passámos a última hora a partilhar apenas o silêncio. Gozámos juntos,
sem pressa, do perfume deste silêncio até que chegaste para nos levar para o jantar. -
- Alegras-me Ela, ao confiar-me estas coisas. As tuas palavras também me ajudam muito, para
viver em comunhão contigo estes dias em que estás connosco e para sabermos aceitar também o
que há de doloroso com serenidade e com paz. Agradeço-te! -


Eu recebeu o beliche de cima e alegrou-se, porque isso dava-lhe o jeito de se sentir mais livre de
seguir os seus pensamentos e revisitar as horas passadas juntos. Tinham sempre falado com
referência à situação de Ela, como era natural e justo. Agora, na escuridão da carruagem e na
solidão do silêncio, Eu perguntava-se de que maneira essas verdades, de que tinham falado,
eram válidas também para si. Parou os pensamentos, para chamar a sensação de fundo, o sabor
último do seu falar-se. De todo o encontro, a lembrança que lhe enchia o coração era sem dúvida
a da Montanha. A sua presença acompanhara toda a conversa e a sua imagem dava consistência
ao evento do subir para o encontro com o Pai.
Em que ponto estarei eu na subida? – perguntou-se. O cimo parecia-lhe ainda distante, não
obstante tivesse consciência de estar já a subir a encosta . Por que esperar ainda para abrir o
último capítulo, o do “efeito vizinhança”? A visita e as verdades que tinham trocado fizeram-no
subir à altitude em que Ela já tinha chegado. Porque não aproveitar? A sua comunhão com Ela
era uma verdade tão real que daí em diante podia continuar a subir em direcção ao cimo,
aproveitando do caminho que Ela tinha, de certas maneira, feito também por ele. Sim, essa
viagem fizera-o dar um grande passo adiante! Sentia que devia agradecer ao Pai e pedir-lhe a
ajuda para continuar a subir daquele ponto, em direcção a Ele.

10
Não passou muito tempo que Eu soube dum velho missionário amigo dele, regressado das
missões porque atingido por um cancro avançado. Vira-o no ano anterior e, depois da operação,
parecia restabelecido. Quando recebeu a notícia, admirou-se um pouco e fez tudo para o poder ir
visitar à sua cidade.
Tinha recebido alta do hospital e residia na casa enfermaria da sua congregação.
Chegou no início da tarde dum domingo cheio de sol e muito quente. Tocou à campainha do
convento e logo vieram abrir-lhe. Apresentou-se como um amigo de velha data do padre Rosário
e pediu para o visitar.
- Recebê-lo-á com muito gosto! Acompanho-o já. -
O padre Rosário estava sentado numa cadeira de braços ao lado da cama e estava com o ar de
quem sofre. Cumprimentou-o com um sorriso de verdadeira amizade e abraçaram-se.
- Não é tanto a dor que me incomoda, caro Eu, quanto o enjoo. Quase não consigo comer
nada. Vomito mais de metade do que, com fadiga, consigo engolir. Como é custoso comer contra
vontade, só por necessidade e, mais ainda, com náusea! -
- Tenho muita pena, padre Rosário. A que é devido este inconveniente? -
- Mal voltei da África internaram-me, porque não conseguia mais urinar e puseram-me este tubo
para mandar sair directamente a urina da barriga. Nos primeiros dias o saquinho enchia-se
depressa, mas desde antes de ontem não sai quase nada. Esta manhã o nosso irmão enfermeiro
colocou-me um novo mas, como vês, há só dois dedos de urina. Dois dias atrás veio o nosso
médico e me mandou fazer todos os dias um litro de soro. Recomendou-me que bebesse muita
água, mas por muito que me esforce, não consigo. Só o pensamento de engolir algo, me faz
sofrer. -
- Não te explicaram nada acerca do teu estado real de saúde? Acerca da evolução da doença? -
- Sei que tenho um tumor maligno que já não se pode operar, mas todos me encorajam a ter
confiança porque o mal estar que sinto, atenuar-se-á com a terapia. -
- Quando tiveste alta, não te deram um documento com a explicação do teu estado de saúde?
Ninguém te disse o que está realmente acontecendo no teu corpo? -
- Não, Eu. Pedi ao superior para me dar informações, mas, na prática não me parece que saiba
grande coisa.
Se o fim se estivesse aproximando gostaria de o saber, como creio que tu também o quererás,
quando for o momento. Dir-te-ei que os resultados das análises do sangue chegaram ontem.
Estão aí na mesa. Se os sabes interpretar, diz-me algo. -
Eu olhou com afecto o padre Rosário. Quantos moribundos assistira entre a sua gente, em terra
de África? Aproximou-se da mesa e leu os exames. Ao lado dos resultados estavam os valores
normais. Tinha uma anemia muito grave e depois todo o resto estava muito acima ou abaixo da
norma. Eu percebia alguma coisa de medicina e lendo os resultados e vendo o saquinho da urina
praticamente vazio, percebeu que o padre Rosário estava já muito próximo do fim e não lhe era
possível dar-se conta.
Eu lembrou-se da última visita que fizera à irmã Ana antes de morrer: estava ainda pesaroso por
não ter sido capaz de falar com ela sobre a sua morte iminente, impedido pela presença da sua
companheira de quarto. Não tivera coragem de aceitar que os deixasse a sós, quando lhe
perguntou se devia sair.
Padre Rosário estava sozinho e, para mais, tinha o desejo de conhecer a verdade. Voltou a pôr
na mesa os exames que tinha lido e foi sentar-se ao pé dele.


- Padre Rosário, posso dizer-te a verdade completa? -
- Sim, Eu. Seria uma grande ajuda. -
- Padre Rosário, o tubo que te meteram directamente na bexiga através da barriga não drena
praticamente mais urina: os rins estão parando de funcionar. Assim também a náusea e o vómito
são uma consequência da mesma situação. Devido ao tipo de tumor que tens, estes fenómenos
não podem mais voltar para trás. Padre Rosário, o Senhor está para te vir buscar para te levar
com Ele. Digo-to com toda a amizade: o momento está perto! -
Padre Rosário comoveu-se.
- Desculpa-me se choro. Não é por medo nem por tristeza. É pela comoção do momento
supremo. Quero dizer ao Senhor que estou pronto, que deixo tudo de boa vontade, porque sei que
irei com ele. Sei que me perdoou tudo, mas queria ter a alegria de receber pela última vez o seu
perdão, antes de morrer.
Olha, daqui a poucos minutos deveria chegar meu irmão da aldeia. Desejaria que repetisses a ele
também o que me disseste. Ele também te ficará grato por lhe teres dito a verdade. -
Pegou-lhe a mão e atraiu-o a si para o abraçar.
- Pela última vez, aqui na terra, Eu! -
- Sim, padre Rosário este abraço é sagrado. Lembrá-lo-ei para sempre! -
Mal chegou a casa, Eu pegou numa folha e escreveu a Ela, para lhe contar a sua visita ao padre
Rosário. Conhecia-o Ela também desde há muitos anos. Eram muitos os missionários, padres,
irmãs e leigos que ambos conheciam. A amizade era de verdade um dos maiores dons que Deus
faz aos homens, aqui na terra.

11
O encontro com o padre Rosário, depois de poucos dias da visita a Ela, trouxeram de novo em
primeira linha aquele pensamento que preenchera o silêncio da viagem nocturna na carruagem
cama. “Efeito vizinhança”, tinha-o intitulado, falando com Ela. Era de verdade outra coisa atirar
setas de amor para o interior da nuvem de Deus quando o cimo da Montanha estava longe, e
agora, pelo contrário, já próximo. A nuvem já não era só a nuvem que escondia. Deus estava já
tão perto, que era possível captar o seu inefável perfume.
Eu dava por certo que, em virtude da amizade espiritual que o unia a Ela, a fadiga da sua subida
fora útil também para ele e sentia-se grato por poder continuar a subir da altitude a que chegara
Ela. A sua carruagem continuava a correr num carril paralelo ao da vida dos outros. Corria direito
para o ponto final, mesmo que não recebesse sinais que indicassem a sua distância
Teria continuado sempre assim. serena e gratificante, a subida para o cimo? O desejo e a alegria
do amar afastariam para sempre qualquer perturbação, medo e agonia do encontro com a morte?
O abraço com Deus, que o esperava, iria anular seguramente todo o terror, medo e solidão que o
morrer gera no coração de quem morre?
“Efeito vizinhança”: repensava frequentemente nesta expressão. A visita a Ela sugerira-lha,
sentindo-a falar de como o aproximar-se do cimo estimulava o desejo do encontro com o Pai,
acelerava as iniciativas de multiplicar as ocasiões de o amar como forma de substituir o que era e
ficava, todavia, o seu desejo último: vê-lo! Sabia que o vê-lo era reservado ao abraço final, no
cimo. Enquanto subia, estando ainda na carne, a coisa mais perto da visão continuava a ser o
amá-lo.


Não tinham passado ainda três semanas do seu encontro, quando chegou uma carta: era Ela.
“Caro Eu, quase cheguei! As forças foram-se embora, cada coisa que dantes me procurava
alegria, agora diria que me enfastia. Voltam-me à mente os relatos dos alpinistas que chegaram
primeiro ao cimo do Everest e do K2. A falta de oxigénio a essas altitudes tornava penoso cada
passo da subida. Três passos, e depois parar para recuperar o fôlego. Depois mais outros três
passos …
Não consigo mais subir. O meu arco das setas de amor não consigo mais armá-lo nem sequer
pegá-lo na mão. Fico quieta, sem poder fazer mais nada. Eu, meu querido, estou apagando-me …
Veio-me apenas a força para te escrever estas duas linhas, que serão as últimas.
Quero entregar-te a última confidência: percebi que devo aceitar parar e esperá-lo aqui! Não serei
eu a chegar ao cimo, virá ele buscar-me. Senti a sua voz, sem som, mas clara: “Pára e deixa tudo.
Não faças mais nada: deves apenas esperar-me. Serei eu a ir buscar-te!”

Adeus, Eu. Tinhas razão quando dizias que o morrer é a extrema humilhação. Sim, Eu. Agora
vejo que é assim. Mas a humildade que me é necessária para aceitar a morte é a última graça que
me está fazendo Ele nesta vida.

Como quereria que também depois da minha morte pudéssemos continuar a falar-nos …
Abraço-te.
Ela”

FIM

Acabado em Nampula, domingo 3 de Julho de 2011
15h59
Aldo















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( modificato in data 22-4-2013)
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