Padre ALDO MARCHESINI
Medico e Missionario Dehoniano a Quelimane (Mozambico)
Sito Ufficiale
Giovedí  23-11-2017   ore  23:20    Buona Notte   IP 54.80.146.251
(Auguri a Padre Aldo per i suoi 43 anni di attività in Mozambico!)
Padre Aldo scrittore
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Racconti di Padre Aldo
(Ordinamento per titolo)
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titolokB
Aldo, cugino mio!8.2
Carissima Chiara, carissimo Emme49.1
Carissimo Babbo23.2
Caro Padre Dehon622.0
Dare il nome a Dio8.3
Dove finisce il tempo12.8
FERITE A VITA - viaggio nel mondo delle fistole ve…52.8
Il povero diavolo14.9
Il seme che muore190.7
Il volto del fratello30.4
Ippocrate senza budget20.1
Kalani murima. Siediti, cuore mio238.4
L'angelo89.1
La Montagna49.7
La figlia di Sunde9.8
La mia missione in Mozambico27.8
La mia testimonianza sulla infezione da HIV AIDS19.1
Le Missioni dehoniane8.1
Lettera a Papa Benedetto XVI4.8
MULHERES CORAJOSAS - viagem no mundodas fistulas v…50.6
Missioni ad Gentes intervista9.4
O fiore notte!85.9
Obbedienza e preghiera7.1
Pa Citatu154.7
Padre Emme248.8
Parlaci della Missione5.5
Pasqua al mare ovvero «spiaggia come avventura int…23.5
Piccolo come un seme di senape276.2
Progetto -chi avrà dato un solo bicchier d'acqua3.7
Quando vuoi fare una cena12.4
Rapete14.2
Ricordi di ospedale35.9
Ricordo di Padre Agostino Gioacchino De Ruschi7.1
Ricordo di padre Emilio Bertuletti53.9
Sapore d'africa8.0
Scuola elementare di contemplazione10.5
Seconda vertebra cervicale136.9
Storie del vecchio abate185.9
Terra Santa34.4
Un medico in missione191.9
Viaggio a Mocuba124.4
Vieni e vedi222.0
A Montanha (in lingua portoghese)52.1
Segunda Vértebra Cervical (in lingua portoghese)132.5
Poesie di Padre Aldo
(Titoli in ordine alfabetico)
titolokB
Addio, domani, amici, vado via1.0
Attraversai di notte il fiume asciutto1.4
Cero che brilli sopra il mio altare1.3
Cittadino del mondo1.6
Foglie secche, sollevate dal vento1.6
Gesù e la luna4.4
I baobab avevano le foglie!1.7
Il cimitero di Milevane1.3
In silenzio brucia la candela1.1
L'albero che prega0.7
La piazza1.4
Mentre il cavallo, lento, camminava1.4
Notte ti chiedo lasciati pregare0.9
O fiore notte1.0
O quarto di luna calante1.8
Per voi, sorelle stelle, esiste il tempo?1.4
Poesie di Songo5.3
Sognavo che avevo le ali e volavo1.1
Stavo sul tetto1.1
Tamburi lontano1.1
Vento caldo del Sud1.5

torna agli elenchi degli scritti
SEGUNDA VÉRTEBRA CERVICAL





1


Estou quase certo de que era uma noite de verão. Estava deitado numa caixa de camisas e sentia-me
bem arrumado e dobrado como se eu mesmo fosse uma camisa nova, exposta para ser vendida.
Estava-se bem ali, um lugar tranquilo e sossegado.

A um certo ponto dei-me conta de que ao meu lado, quer à esquerda,quer à direita, havia
uma fila enorme de outras caixas de camisas, cada uma com a sua camisa novinha e bem dobrada.
Estávamos todas num grande relvado. A atmosfera parecia ser idílica, quando, de repente, tornou-se
evidente à minha consciência que todas nós as camisas, não éramos de facto camisas - não - mas
sim, pessoas!

Que descoberta assustadora e angustiante! Éramos - na realidade - pessoas, todavia tínhamos
deveras aspecto de camisas. Pareceu-me que todas tivéssemos chegado a essa consciência
contemporaneamente e esta sensação cravou-se em mim com tanta evidência, que cheguei a
interrogar-me - comigo mesmo – se, por acaso, cada uma delas fosse distinta de mim, ou não
pudesse ser que todas elas não fossem se não eu: que eu não fosse mais um só, mas sim multidão!…

Fiquei turbado por aquelas descobertas impensáveis. De que maneira podia estar-me a
acontecer semelhante coisa? Nenhuma resposta se apresentou à minha mente. Nem, este facto, me
admirou demasiado, pois sentia-me camisa a tal ponto que me parecia normal não ter direito a
encontrar explicações.

Instintivamente quis levantar-me para olhar melhor nas caixas ao meu lado e comunicar com
as pessoas ali deitadas. Uma nova, terrível surpresa me esperava: era impossível levantar-me. A
minha cabeça estava cravada contra o chão e não podia levantar-se nem de um milímetro sequer!
Tentei virar-me de lado: totalmente impossível. Recolhi todas as minha energias e dei um incrível
puxão, uma, duas, três vezes: nada! Uma força invencível, desconhecida, maligna, mantinha-me
cravado como uma estaca, no fundo da minha caixa de camisas e mantinha por sua vez a caixa
cravada contra o solo do relvado. Os meus vizinhos, ao mesmo tempo, quiseram levantar-se, mas
também eles sofreram a mesma decepção: estavam todos, como eu, com a cabeça cravada no chão.
Um espírito de revolta percorreu toda a nossa incrível comunidade: tinha por certo que todos
estavam a contorcer o corpo, a fazer todas as possíveis tentativas para se desencravar do solo e
libertar-se. Ouvia gritos de revolta, de raiva, de desespero, e eu mesmo gritava com todas as
energias. Que agitação! Que desesperada e violenta vontade de liberdade percorria todo o relvado!
E eu tentava e voltava a tentar, com sempre mais força – e com sempre maior desespero- libertar a
minha cabeça daquela prisão.

Dois dias e meio durou aquela revolta, mas a escravidão não foi eliminada. Nós, os escravos,
continuávamos inexoravelmente escravos…

De repente fez-se um grande silêncio e uma grande calma.

Encontrei-me sozinho num lugar desconhecido. A minha memória estava vazia e limpa como a
praia duma ilha deserta. Não sabia nada de mim: quem eu era, se homem ou mulher, que idade
tinha, onde me encontrava, porque estava ali e que lugar era aquele. Não sabia nada do meu
passado, como se tivesse acabado de ser criado naquele momento. Uma única verdade era para mim
clara: a minha absoluta solidão! Olhei em redor: só podia ver o céu. Era totalmente branco.
Encontrava-me deitado num plano branco, que - não sei porquê – estava convencido que fosse um
amplo relvado. Quis levantar-me para ver melhor onde me encontrasse. Mas foi-me impossível: a
minha cabeça estava cravada no chão! Tentei libertar-me, mas logo compreendi que nunca poderia
conseguir. Uma força infinitamente mais poderosa do que eu mantinha-me naquela posição.
Precisava absolutamente de alguém que me libertasse. Mas a minha situação era sem esperança: a
solidão daquele lugar era total.
Senti-me perdido! Deveria ficar assim, prisioneiro sem possibilidade de libertação, sem um limite
de tempo à frente…
Tal era a morte que me esperava!
Senti a minha alma encher-se de uma angústia sem limites. Nenhuma salvação era possível!

Quanto tempo passou? Não sei, mas certamente o suficiente para saborear quanto amarga era a
condição de quem não tem mais esperanças.

Vi uma figura vestida de branco aparecer e dirigir-se para mim. Pegou no meu braço e apertou-mo
com uma espécie de laço. Depois tirou o laço e, sempre envolvida de silêncio, desapareceu.
Quem podia ser ela? Olhei mais uma vez em redor. Agora o relvado tinha mudado para um quarto
e o céu era o tecto.

Um pensamento vindo de longe, como uma ave selvagem, pousou-se sobre a areia da praia deserta
da minha mente e começou a saltitar.
Algo me tinha acontecido algum tempo atrás, algo de grave, e eu estava deitado numa cama de
hospital. Aquela figura vestida de branco podia ser uma enfermeira…
As lembranças começavam a atravessar como fantasmas inconsistentes e evanescentes a minha
memória. Tivera um acidente de viação e o meu pescoço tinha sofrido muito…Dores…Uma viagem
longa... Vozes em volta de mim, sem eu poder ver nada…Uma cama de hospital…
Depois silêncio, solidão, dores…
Lembrei uma voz que me dissera que uma vértebra do meu pescoço se tinha luxado e fracturado:
para curar deviam colocar-me duas pontas de um compasso no crânio e puxar com uma tracção…
Era essa a estaca que cravava a minha cabeça no chão!
Não servia para nada tentar libertar-me: era lutar contra um poder que nunca poderia vencer.

Uma verdade tornou-se evidente no centro do meu ser, quase fosse uma revelação que tivesse um
valor universal: quando um poder invencível nos esmaga e não temos recurso nenhum para nos
libertar, não vale a pena tentar revoltas, usar a força…Vamos acrescentar à escravidão a amargura
da derrota. Vale mais aceitar a situação e aprender a saber esperar: há um tempo para tudo, um
tempo para a escravidão e um para a libertação!
Toquei com a mão os ferros que prendiam a minha cabeça: era para o meu bem, o meio para me
curar. Sim, valia a pena aceitar e ficar assim todo o tempo que fosse necessário!











2

Estava no hospital e devia haver uma irmã que me assistia em qualquer lado do quarto. Olhar em
redor era impossível. A única coisa visível era o tecto branco na semi-escuridão.
“Irmã!” sussurrei.
Acorreu ela logo.
Estava muito preocupado pela confusão da revolta de quando me encontrava no relvado com as
outras camisas: dois dias e meio de gritos, de revolução…”Irmã, que aconteceu de facto nestes dois
dias? foi grande a confusão? o que é que eu fiz?”
“Não houve nada”
“Diga-me a verdade, por favor, irmã! Tenho a mente confusa sobre estes últimos dois dias e meio.
Gritei muito?”
“Não, não houve nada. Só ficou muito agitado toda a noite, mexeu-se muito, mas não gritou nada.”
“Queria saber dos outros. Eram muitos? O que é que fizeram?”
“Quais outros? Não veio ninguém aqui. Fique sossegado. Acalme-se, tudo vai bem, não há nada de
mal. Tente dormir, que precisa descansar…”
A irmã voltou a sentar-se numa cadeira ao lado da cama e desapareceu da minha vista. As pontas do
compasso, cravadas nos lados da cabeça não me permitiam virar. Só conseguia olhar em frente. O
tecto do quarto era o meu único panorama! Era rectangular e no ângulo, no fundo à direita tinha
uma pequena extensão, também rectangular, mas pequena, que de noite deixava entrar uma luz, a
única no quarto.

Voltou o silêncio. Continuava a noite. Devia ter sido um sonho, então. Mas porquê tinha durado
dois dias e meio? Não encontrava resposta.
Queria fazer mais perguntas, mas nem a mim mesmo conseguia especificar o conteúdo.
Que fadiga pensar! Melhor seria dormir mais um pouco. Sim, adormecer…
As costas estavam cansadas. Ah, poder virar-me só um pouco… Mas a cabeça estava presa!
Não deixei, porém, que voltasse a mim a revolta do sonho. Os ferros que me imobilizavam eram
para o meu bem. Era necessário aceitá-los e, da mesma forma, aceitar também as consequências.
Todavia permanecia difícil adormecer sem me poder virar!

Pensei na irmã que tinha regressado à invisibilidade. Para ela, passar a noite inteira sentada na
cadeira devia ser bem mais duro do que para mim.
Fechei os olhos e, pouco a pouco, adormeci.

Um embrulho branco estava na minha frente, apoiado sobre uma tábua de madeira. A tábua era
horizontal e eu via-a de cima, como se estivesse suspenso sobre ela.
Ninguém estava em volta…
Só existíamos eu e o embrulho. Percebi que o embrulho era só uma aparência exterior. A sua
verdadeira essência era outra.
Sentia o meu corpo descer sempre mais profundamente na relaxação do sono e desejar abandonar-se
na imobilidade, até quase parar de respirar. Desejava mergulhar-me na escuridão, cancelar qualquer
imagem, numa palavra, dormir! Dormir sem consciência de nada, sem solicitações, sem
pensamentos, sem movimentos, sem ruídos, sem sonhos. Dormir e basta, mergulhar-me no nada!
Dormia, de facto, profundamente. Não sei como, mas sabia disso com evidência. Todavia aquele
embrulho continuava na minha frente. A vista interior não se podia afastar dele, nem a minha
consciência subtrair-se às suas exigências.
Aquele embrulho era um doente, um doente meu, do qual devia tomar conta e que devia tratar. Não
era preciso que mudasse de aspecto, nem que o seu problema clínico fosse explicitado. Devia porém
resolvê-lo, sem a ajuda de imagens, informações, exames ou colóquios.
O sono tinha tomado posse do meu corpo até à sua última célula: sentia-me como que paralisado. A
minha consciência, pelo contrário, estava alerta. Sentia uma espécie de laceração profunda: de um
lado a exigência de usar em cheio todas as minhas faculdades e, do outro, a prisão do meu corpo,
incapaz de qualquer movimento.
A presença do embrulho impunha-se sobre mim, opressiva e exigente, até, diria, brutal. Sentia o
meu pensamento empenhado ao limite da sua capacidade, mas a consciência não o conseguia mais
seguir. Ele trabalhava sozinho, com uma aceleração contínua. Eu sentia-me como perdido. A minha
unidade estava-se rasgando, sentia-me lacerado! O pensamento tinha compreendido o caso e intuído
a maneira de o resolver. A consciência, porém, não pudera seguir os seus conteúdos e estava a
começar a agitar-se para saber a solução. Queria abrir mais os olhos para o ver nitidamente, mas só
o podia ver através duma estreitíssima fissura das pálpebras: não me era possível abri-las mais.
Comecei a ficar agitado.
Precisava acelerar o ritmo da respiração, mas, por quantos esforços fizesse, o tórax continuava a
expandir-se com a mesma lentíssima frequência. Queria acordar, mexer-me, fazer algo…
Impossível. Uma força superior, implacável, paralisava-me por completo. Sentia-me invadir pelo
desespero. O meu pensamento tinha já resolvido o caso, mas a consciência ainda não conseguia
apoderar-se desse resultado. Só então é que o embrulho seria afastado e eu ficaria livre da sua
terrível presença.
Precisava conseguir fazer um respiro profundo, encher de ar os pulmões.
A agitação do meu eu interior era extrema. Tinha uma impressão semelhante à de ter ficado
prisioneiro num quarto com todas as janelas fechadas. Eu corria de uma para a outra batendo, dando
socos e pontapés para tentar partir um vidro e fugir.
Impossível!
De repente senti que a consciência tinha voltado a habitar o meu corpo. Sentia de novo as mãos, o
peito, os pés, os olhos…
Mandei uma ordem aos olhos para se abrirem. Nada! A uma mão: estava paralisada. Ao peito, para
fazer um respiro profundo: impossível!
Entretanto o embrulho permanecia ali em frente a angustiar-me, a esmagar-me!
Fiquei assim um tempo que me pareceu eterno, mergulhado na impotência.

Pouco a pouco acalmei. Percebia que nada valia agitar-me. Devia adaptar-me à situação e procurar
como resolvê-la, mas sem usar a força, porque quem me mantinha prisioneiro era infinitamente
mais poderoso do que eu.
Tomava forma sempre mais nitidamente a intuição de que, se tivesse podido fazer um respiro
profundo, tão profundo que conseguisse aspirar todo o ar que estava em volta, isso equivaleria à
libertação. O paciente receberia diagnóstico e tratamento e o embrulho desapareceria da minha
frente.
A esse ponto o encantamento que me paralisava, quebrar-se-ia e eu podia voltar a ser livre!

Um respiro, então!
Mas não um respiro qualquer: o meu devia encher-me de maneira tal a quebrar a paralisia que me
bloqueava e a reduzir a nada, sem o tocar, o terrível embrulho, cuja presença me sufocava. Um
respiro tão poderoso que fosse capaz de actuar sobre ele só com a força do seu influxo à distância.
Era claro, agora, o que era necessário para a libertação. Ela, porém devia nascer dentro de mim,
não me podia vir de fora.
Deixei as mãos, deixei os pés, deixei os olhos: todos os meus recursos deviam concentrar-se no
peito. Ele subia e descia com um ritmo lentíssimo. Enchia-se só um bocadinho, esperava um pouco
e depois se esvaziava. Tentei acelerar, nada!
Coloquei a minha consciência de baixo das costelas e comecei a seguir o ritmo do respiro. Devia
sincronizar-me, primeiro, com os movimentos da caixa e tentar desencadear o ataque no momento
da expansão.
Eis, estava sincronizado.
Reuni todas as minhas energias: tudo pronto!
A caixa esvaziou-se. Começava a expandir-se: era o momento!
Com toda a violência de que era capaz mandei um empurrão às costelas de dentro para fora. A caixa
encheu-se de todo o ar possível!
O embrulho desapareceu. Mexi as mãos e os pés: estava livre!
Quem guiava a respiração agora era eu. Respirei profundamente, à vontade, quantas vezes quis.
O esforço porém tinha sido traumatizante e eu sentia- me esgotado.
Estava cheio de sono. Nem abri os olhos: não valia a pena. Já estava livre. Agora podia dormir
tranquilamente. Aquele esforço terrível tinha-me prostrado, sentia uma necessidade imperiosa de
recuperar. Abandonei-me ao sono e adormeci, profundamente.
Um novo embrulho, branco, amarrado com corda estava na minha frente.
Tentei abrir os olhos, fazer um movimento, nada: estava outra vez prisioneiro!
Não valia a pena desesperar-me. Era preciso resolver outro caso, tratar outro doente.
Tudo se repetiu igual até conseguir um novo respiro, e depois aparecer outro embrulho…

O sonho, o pesadelo durou um tempo sem medida. A sensação de sofrimento e esmagamento
feriam-me e humilhavam-me profundamente.

Até que, a um certo ponto, senti que me tocavam num braço. Abri os olhos. Era a irmã de antes.
“Padre, chegou a enfermeira para lhe dar o banho na cama".
Estava acordado! Via o quarto com toda a evidência e reconheci a irmã: era Ir. Isabel, do Sagrado
Coração de Maria.
Havia pessoas em volta de mim. A minha solidão acabara. Recomeçava a viver!

A enfermeira cumprimentou-me.
“Bom dia , senhor padre! Dormiu bem?”
“Bom dia, bom dia” respondi, ainda um pouco surpreendido pela brusca passagem do mundo
angustioso do sonho à tranquila realidade da vida. A enfermeira apoiou a bacia com água quente
sobre qualquer coisa que eu não podia ver. As pontas metálicas do meu compasso, espetadas na
cabeça logo acima das orelhas, obrigavam-me a permanecer totalmente imóvel, apoiado ao lençol.
Só os olhos é que podia virar em redor, mas o seu raio de acção era muito limitado. A cara da
enfermeira entrava só na periferia do meu campo visual, adivinhava as suas feições, mas sem poder
chegar a vê-la.

Com o voltar da consciência tinham voltado as dores. O compasso era puxado por um cabo de
nailon que passava sobre uma roldana e ao qual estavam ligados vários quilos de peso. A cama
estava inclinada, com a parte da cabeça levantada sobre dois blocos de madeira. de maneira a que o
peso do meu corpo puxasse de um lado e os quilos da tracção do lado oposto.
Sentia todas as junções, os tendões, as articulações, os ligamentos esticados com grande força em
direcções opostas. Da base do crânio até à bacia, tudo me doía. Uma dor pesada, contínua, aflitiva.
O que mais me custava era a sua duração. Intuía que, pela natureza da coisa em si essa dor não
podia parar, enquanto a tracção exercesse o seu efeito sobre os meus ossos e ligamentos. Era essa
duração sem alívio –a consciência dessa duração sem alívio – que me oprimia ainda mais do que a
dor em si. Todavia a coisa não era totalmente desesperada. Cada quatro horas davam-me na veia
uma injecção de analgésicos, que me ajudava bastante. Em poucos minutos as dores abrandavam e
tornavam-se suportáveis. Mas, passadas duas horas e meio, o efeito da injecção acabava e
recomeçava o tormento da tracção. Como interminável se tornava aquela hora e meia de espera até
à injecção seguinte!


3


“Vamos tirar o relógio, senhor padre” O relógio estava no pulso direito porque os movimentos do
braço e da mão esquerda custavam-me muito. Os nervos da raiz do braço tinham sofrido no
acidente e qualquer movimento me custava. A mão tinha pouca força e estava com formigueiro. O
dedo indicador nem parecia mais ser meu.
A enfermeira tirou-me o relógio e guardou-o ao lado. Era o que a Dna. Matilde me tinha
emprestado. O meu tinha caído no lugar do acidente. A Dna. Matilde tinha trabalhado como
enfermeira chefe no hospital de Quelimane e agora estava no Ministério. Foi a pessoa que me
assistiu e cuidou de mim no primeiro dia de hospitalização, no início daquela semana…

Era o dia 10 de novembro e no Maputo era feriado: o aniversário da fundação da cidade. Senti a um
certo ponto uma mão que apertava a minha e uma voz que me dizia:
“Bom dia, doutor, sou a Matilde. Como está?”
“Com muitas dores, mas não me sinto em perigo de vida.”
“Deram-me licença para ficar aqui no quarto, consigo. Espere um pouco que vou vestir uma bata
branca. Hoje é feriado e não vou trabalhar. Posso ficar todo o dia.”
“Obrigado!”
Aquele gesto de amizade confortou-me. Ter ao lado uma pessoa amiga faz bem, nos momentos
difíceis. Fiquei a dormitar: ficar acordado era fatigante demais.
Dei conta que ela estava já sentada ao pé da cama só quando as dores voltaram a aparecer e a
consciência despertou. Devo ter gemido, porque me perguntou:
“Está a doer muito?”
“Muito, sim.”
“Coragem, é preciso suportar.”
“É verdade, mas custa…”

Passou um tempo que me pareceu muito comprido.
“Matilde, não me podem dar uma injecção para acalmar as dores?”
“Vou saber.”
Voltou com a enfermeira de serviço. Essa me explicou que me tinham prescrito acetilsalicilato de
lisina intravenosa de seis em seis horas.
“Quanto falta para receber a próxima?”
”Aínda três horas.”
“Que horas são?”
“Onze”, respondeu Matilde.
Nenhum comentário.
“Três horas. – pensava comigo– Como conseguirei aguentar?
Todo o corpo me doía e a posição começava a tornar-se intolerável. Tentei virar um pouco a bacia,
mas não consegui. Matilde deu conta.
“O doutor não se mexa. Vou puxar o lençol de um lado, assim o corpo vai rolar um pouco para o
lado contrário e ficará aliviado.”
Dito e feito: sem nenhum esforço senti-me virar para a esquerda. Passou um outro tempo infinito.
“Que horas são?”
“Onze e um quarto.”
Uma punhalada me teria doído menos: ainda duas horas e três quartos para a injecção…
“Coragem, doutor. Resista. O tempo irá passar. Porquê não come alguma coisa?”
“Não tenho vontade nenhuma de comer.”
“Mas pelo menos beba um pouco de sumo de fruta. Tem que se esforçar, mesmo que o soro esteja a
correr. Está aqui sumo de laranja. Chupe!”
E me enfiou entre os lábios um tubinho de plástico. Bebi dois golos de laranjada e logo fiquei cheio.
Não me apetecia tomar nada.

Dormir era impossível, mas o torpor se apoderou de mim e pareceu-me mergulhar num estado de
consciência obnubilada. Depois de muito voltei a perguntar:
“Que horas são?”
“As onze e três quartos.”
“Este tempo não passa nunca…”
“Coragem! Vai passar, sim. Daqui a pouco, ao meio dia, a minha filha vai trazer uma sopa de
hortaliça.”
Passou mais um tempo bem largo.
“A Nilza trouxe a sopa. Quer tomá-la?”
“Sim, obrigado. Vou tentar.”
A enfermeira Matilde pôs-me um guardanapo sobre o peito e o pescoço e começou a enfiar-me na
boca colheres de uma sopa de hortaliça tão saborosa e duma quentura tão agradável, que me
reanimou.
“Que boa!” não pude deixar de exclamar, depois das primeiras duas colheres.
Acabei a sopa.
“E agora que horas são?”
“Doze e um quarto”
“Matilde, não aguento mais! Vá, por favor, saber se não se pode antecipar a injecção.”
Ela foi. E, a seguir, veio com a chefe da enfermaria.
“Está bem. O médico autorizou para a fazermos de quatro em quatro horas. Vou já preparar a
injecção ”
Aquele “já” foi verdadeiro. Daí a pouco voltou com a seringa e me injectou na veia, através do
sistema de soro, o suspirado remédio. Dentro de poucos minutos senti a dor abrandar e diminuir
cada vez mais. Que alívio!
“Obrigado!” disse para a enfermeira e para Matilde ao mesmo tempo.
Logo adormeci profundamente.

Acordei ao recomeçar das dores. Perguntei a Matilde a hora: tinham passado duas horas e meia. O
tempo recomeçou a marcar passo. Não passava mais. Felizmente, porém, a espera reduzira para
uma hora e meia. Estava a aprender a paciência e a saborear o significado de ficar à espera.
Estava a compreender duma maneira, cuja eficácia nunca suspeitara, o que queria dizer “duração” e
os seus sinónimos permanecer, ficar, esperar, suportar, aguentar…
O dia passou assim, nesta escola.
Uma puxada de lençol para virar um pouco para a direita, depois uma outra para virar para a
esquerda, um golo de sumo, uma pergunta de que horas eram.
Chegou a noite: Matilde devia voltar para casa. Cumprimentei-a com muita gratidão.
Foi substituída pela Ana Maria, da Companhia Missionária, também enfermeira.
Noite agitada, com dores, inquietude, angústia interior, sonhos assustadores…
Na manhã seguinte a enfermeira Matilde passou de novo para me cumprimentar. Na madrugada,
depois do banho, ajudando-me com as mãos, eu tinha conseguido descolar as pálpebras e abrir um
pouco os olhos. Essa novidade animou-me, e foi logo a primeira coisa que comuniquei à Matilde.
“Se consegue ver, vou deixar-lhe o meu relógio, assim poderá saber sempre que horas são!”
“E Matilde como irá fazer?”
“Não se preocupe, eu tenho outro.”
Esta foi a maneira de como aquele relógio ficou comigo.



4


O ritual do banho começava com o lavar a cara, por meio duma esponja. Primeiro era passada com
sabão e depois só com água quente. Por último, a enfermeira secava com a toalha.
O lençol de cima era baixado até ao púbis e eram lavados e secados o tronco e os braços até às
mãos. O lençol era puxado sobre a barriga e as pernas dobradas, com os pés apoiados sobre a
toalha, estendida no plano do colchão.
Para lavar as costas e as nádegas era mais complicado, devido ao facto de que a cabeça estava presa
na tracção.
Com muito cuidado era ajudado a pegar no compasso e acompanhar com a cabeça o virar de meia
volta do corpo para a esquerda. Logo me assaltavam vertigens violentas: parecia-me dar, com todo
o corpo, um salto mortal para trás, como se fosse artista de um circo a fazer acrobacias. Não podia
resistir de apoiar uma mão sobre os olhos, na tentativa de travar, com aquela pressão, a reviravolta.
Essa sensação durava menos de um minuto, mas cada vez era como se fosse sempre a primeira.
Lavado e seco, havia a mudança do lençol. O velho era enrolado e o novo esticado até metade da
cama e enfiado debaixo do meu corpo. A seguir devia virar de novo e, desta vez, para trás, de 180
graus, até ficar sobre o flanco direito. Era a parte mais empenhativa de todo o rito do banho. À
metade da viragem, quando chegava na posição supina, era preciso parar um pouco, até as vertigens
acalmarem-se. A esse ponto estava pronto para a última meia volta. Esperava, sobre o flanco
direito, que o lençol fosse esticado e enfiado debaixo do colchão. Quando a enfermeira era Dna.
Mariamo, ela concluía sempre com uma exclamação de júbilo:
"Ah, como saiu bem! Que bonita a cama, assim, esticadinha. Estou mesmo contente!"
Ajudava-me a voltar de costas, devagarinho, pegava na bacia e ia-se embora.

A irmã Isabel deu-me o relógio e pôs-mo no pulso. Eram cinco e meia da manhã. Faltava meia
hora para a injecção. A minha mente não estava ainda clara. As dores dos ligamentos, articulações e
músculos misturavam-se com os sofrimentos dos sonhos daquela interminável noite. Ainda estava
viva em mim a revolta das camisas, que durou dois dias e meio. Possível que não tivesse havido
confusão e agitação no quarto, com todos aqueles gritos? Voltei a pedir à irmã Isabel notícias sobre
os acontecimentos da noite.
"Não aconteceu nada. Fique sossegado, padre Aldo. Ninguém entrou aqui e não houve gritaria. O
padre mexeu-se muito e gemeu bastante, mas no corredor de verdade não se ouviu nada. Veja lá se
consegue dormir um bocadinho mais. Esta noite descansou pouco."
"Obrigado. Falta pouco para a injecção. Depois de a apanhar hei-de dormir mais."
Às seis chegou a enfermeira com a seringa na mão. Fez-me a injecção e logo adormeci.
Quando acordei, a irmã Isabel já tinha sido rendida por uma outra irmã da mesma casa, a irmã Olga.
A sua vista alegrou-me: tinha ficado anos em Quelimane, no território da mesma paróquia e nos
conhecíamos bem. Tinha sido transferida meses antes, mas não lembrava os pormenores. Não a
imaginava no Maputo e por isso vê-la aí, ao pé de mim, alegrou-me duplamente: pela amizade
antiga e pela surpresa. Limitei-me a sorrir-lhe: estava confuso e não me apetecia dizer nada. Ela
compreendeu e ficou em silêncio. Só me apertou a mão com um sorriso de interrogação, como a
perguntar-me: "Como vai?". Levantei apenas as sobrancelhas, como a responder "Assim, como
vês!"
Foi à mesinha e voltou com uma chávena e o guardanapo:
"Vai um pouco de chá com leite?"
"Sim, obrigado"
Da minha posição só podia ver, de baixo para cima, o fundo da chávena e a barriga da colher, mas
não o seu conteúdo. Apenas tinha acesso ao sabor do que me entrava na boca; o aspecto e o perfume
ficavam só para a pessoa que me ajudava.
Quando acabou, pedi para que se sentasse perto. Tinha muita vontade de dizer algo sobre a beleza
da amizade e lembrar quanto antiga era a nossa e que linda surpresa tinha sido vê-la, nessas
circunstâncias, ao pé de mim, ao acordar. A mente, porém, não estava ainda lúcida o suficiente para
dizer verdades desse tipo e, enquanto procurava as palavras para as exprimir - mas sem resultado -
senti a comoção prender-me a garganta. Limitei-me a apertar-lhe a mão…

Como me tinha tornado frágil!
Que me tinha acontecido, na realidade?
Aquela ave saltitante sobre a areia da praia deserta da minha memória tinha deixado pegadas em
número muito escasso para eu poder reconstruir os acontecimentos.
Devia cavar melhor nas minhas lembranças, deixar que o que me tinha acontecido se apresentasse
com mais clareza à consciência…


5

A primeira lembrança que recuperei foi a dor. Uma dor violenta, contínua, de uma natureza tal que
não podia ter alívio. Estava localizada no pescoço e impedia-me qualquer movimento. Tinha
aparecido de repente, juntamente com a consciência. Tinha a impressão de um início novo,
precedido por um vazio escuro e sem recordações.
Estava deitado por terra, de costas: sentia o solo por baixo de mim. Não via nada: os olhos não se
podiam abrir. Duas mãos delicadas me seguravam a cabeça, mantendo-a imóvel. Uma voz velada
de pranto dizia:
"Doutor Marchesini está vivo? Respire, respire! Doutor Marchesini, diga alguma coisa!. Tivemos
acidente. O carro virou. Doutor Marchesini, respire!"
Reconheci a voz: era a da Dna. Lúcia, a enfermeira chefe do bloco operatório de Quelimane.

A dor era extraordinariamente forte, ocupava o horizonte todo do meu ser. Logo pensei que, para
me sentir tão mal, devia ter partido ou luxado uma das vértebras cervicais.
Quantas vezes tinha recebido no banco de socorros vítimas de quedas dos coqueiros ou de acidentes
de viação, com as vértebras cervicais luxadas ou partidas! Quantos deles vinham já tetraplégicos,
com braços e pernas paralisados! A prova, que sempre mandava fazer a todos, era a de dar um
respiro profundo, de maneira a expandir a caixa torácica. Se o peito não se enchia de ar, queria dizer
que os músculos intercostais não funcionavam e que portanto a medula espinhal, contida no canal
vertebral, tinha ficado seccionada ou gravemente contusa.

E se eu também tivesse a medula lesada e fosse já tetraplégico? Podia, de verdade, ter-me
acontecido isso!
Mas até fazer a prova do respiro não o podia saber.
Que momento dramático foi esse!
Sim, podia estar paralisado nos quatro membros. Se assim fosse, não havia mais nada a fazer: seria
essa a minha situação durante o pouco tempo que ainda poderia viver.
Durante aqueles momentos que a dúvida durou, senti-me solidário com todos os meus pacientes
tetraplégicos e, na prática senti-me, eu também, como um deles.
Era o momento culminante da minha vida. Teria resistido à descoberta de estar com os quatro
membros paralíticos? Devia absolutamente conhecer a verdade! Se estivesse imobilizado, não havia
outra alternativa que aceitar essa cruz das mãos de Deus.

Sem saber qual seria o meu futuro destino, aprestei-me a fazer um respiro profundo.
Enchi de ar os pulmões: senti a minha caixa torácica expandir-se, sem resistências. Não era
tetraplégico!

Pareceu-me estar a viver a experiência, terrível e maravilhosa, de Abraão, quando levantou o cutelo
para o céu, antes de imolar o seu filho Isaac. No seu coração já o tinha imolado, mas Deus não o
deixou prosseguir. Isaac era-lhe devolvido! Não podia ser mais, porém, o mesmo Isaac de outrora.
Do Isaac de Abraão tornara-se o Isaac de Deus, filho recebido em dom duas vezes. Dantes era o
filho da promessa, agora o filho da benção!
Quanto a mim, tinha recebido o meu corpo no nascimento e, neste momento, depois de partir o
pescoço e ter escapado à paralisia dos quatro membros, era como se o recebesse de novo: Deus não
tinha querido o holocausto dum corpo sem movimentos. Devolvia-me o corpo, para que o
continuasse a usar com tudo o que tinha aprendido a fazer com ele até então!

Agradeci a Deus de todo o coração.

Ouvia a voz da Dna. Lúcia que, depois de ter visto que respirava, continuava a chamar-me por
nome, para que dissesse alguma coisa.
"Sim, estou vivo, estou vivo." Respondi.
E logo acrescentei:" E a minha medula está inteira! E os outros, como estão?"
"Estamos vivos todos."
"Graças a Deus!"
"O carro virou. Trouxemos o doutor aqui para a margem da estrada. Não há ninguém aqui em volta.
Já passou bastante tempo e ainda não passou ninguém.
Oh, está a chegar o sol aqui. Segurem uma capulana para fazer um pouco de sombra na cara do
doutor."
Os olhos não se abriam e não podia ver nada, mas dei conta de que alguém me fez sombra.
"Como se sente, doutor?"
"Tenho uma grande dor no pescoço. Devo ter uma fractura ou uma luxação das vértebras, mas
felizmente a medula não se partiu. No resto do corpo não me dói nada."
Mexi um braço e uma perna, como a provar que não me doíam. Com a mão toquei-me na cara,
porque os olhos não se abriam. Senti que havia uma ferida na cabeça e na testa: pareceu-me grande.
Fiquei surpreendido porque não sentia dor. Mas não disse nada.
"Não se toque aí doutor, que tem uma ferida. Já quase parou de sangrar. Olhe, está a vir um homem
de bicicleta."
Senti que lhe estavam a pedir para ir procurar socorros à Maganja da Costa. Não percebia bem as
palavras, mas tive a impressão de que não estava disposto: Maganja era longe demais para ir de
bicicleta. Todavia não conservei lembranças do fim da conversa. A minha cabeça estava muito
confusa e a consciência oscilava entre a lucidez e o torpor.

O fio condutor da percepção do meu eu não era mais a consciência, mas sim a dor.
Ela era extremamente violenta e contínua. Embora localizada numa área restrita do meu corpo
ocupava totalmente o meu horizonte interior. Bastava um mínimo movimento, imperceptível, para
crescer desmedidamente. Mas a Dna. Lúcia não deixava que o meu pescoço se pudesse mexer.

Fez-se silêncio, para eu poder ficar sossegado.
Fiquei com os meus pensamentos, se bem que pensamentos não acho que se pudessem definir.

Apoderou-se de mim, como vindo de fora, uma percepção de unidade com Jesus na cruz. Parecia-
me que estava um pouco à minha direita, alinhado comigo, ele também deitado na estrada.
Compreendi as suas dores com uma intuição interior, como se estivesse dentro do seu corpo.
Imediatamente dei-me conta da diferença abismal entre as suas e as minhas. Ele tinha todo o corpo
invadido, da coroa de espinhos na cabeça, aos pregos que lhe penetravam as mãos e os dois pés, a
todo o corpo com as profundas feridas da flagelação. Os pregos tornavam-no, duma certa maneira,
tetraplégico…
A posição na cruz impedia-lhe a respiração, mas, sobretudo, a cruz era o suplício que devia
concluir-se com a morte!
Aquela presença inesperada, não invocada nem pedida, era a maior graça que podia receber. O fruto
e a lembrança que desde então me acompanharam, não foram apenas um conforto para me ajudar a
suportar as minhas pequenas dores sem me queixar: a graça verdadeira foi ter percebido a dor de
Jesus directamente, sem nenhum intermediário, ter tido acesso a partilhar e a compreender, por
quanto num grau infinitesimal, a verdade que foi a cruz para Ele…

Não tinha conhecimento do tempo, nem estava a esperar que aparecessem os socorros. Existia
apenas o presente e o presente estava preenchido pela dor.
"Dna. Lucia, não tem algo para aliviar um pouco a dor?"
"Sim, tenho paracetamol, para as dores de cabeça. Mas o difícil será engolir, nesta posição."
"Eu meti uma garrafa de água no carro esta manhã, antes de sair. Talvez esteja ainda inteira."
Daí a pouco uma voz que não reconheci disse que a garrafa estava em boas condições e que tinha
encontrado também uma seringa de plástico.
"Vou esmigalhar o paracetamol, assim vai passar melhor. Depois vou enfiar-lhe a água na boca com
a seringa, para conseguir engolir." Disse Dna. Lúcia.
Abri a boca para receber os pedacinhos do comprimido e, logo a seguir, senti a seringa entre os
lábios. Injectou a água e consegui engolir sem me engasgar.
"Muito obrigado!" disse com gratidão. "Tenho sede. É possível beber mais um pouco?"
Logo, mais água me foi deitada na boca com a seringa. "Que sorte ter encontrado essa seringa!"
pensei.
As dores daí a pouco abrandaram e senti-me aliviado minimamente..

Passou um tempo de silêncio, durante o qual penso que adormeci.
Fui acordado por uma exclamação: "Está a vir um carro!"
"É um camião que vai à Maganja. Têm lugar para nos carregar todos." Disse-me pouco depois a
enf. Lúcia.
"Segurar bem o pescoço ao doutor!" Reconheci a voz do técnico de fisioterapia Arijama.
Eu mesmo colaborei com os outros e me segurei com as duas mãos, cheio de medo do que poderia
acontecer: a medula tinha ficado inteira no acidente, mas nos movimentos inevitáveis de me
trasladar de um lado para outro, estava exposta a lesões que podiam resultar fatais.
Senti-me levantar em peso, agarrado por muitas mãos, os pés mais altos da cabeça. Apesar do
grande cuidado o pescoço mexeu-se e uma dor súbita, incrível, rebentou debaixo da nuca.
Não soube controlar-me e lancei um grito com todas as forças que tinha. Imaginei que o grito, tão
violento que foi, dobrasse, pelo susto, os ramos das árvores ali em volta!
Logo que fiquei arrumado na caixa do camião, dei mais um respiro profundo, para ter a certeza de
que a medula tinha superado sem danos esses movimentos todos. A caixa torácica encheu-se sem
problemas. Mais uma vez dei graças a Deus!

Ao chegarmos à Maganja era necessária mais uma mudança, do camião para o interior do Centro de
Saúde. Novamente grande medo e grandes cuidados. Cheguei sem problemas até ao interior.

Lembrava que tínhamos passado por aí dois dias antes, na viagem de ida e que tínhamos combinado
para, no regresso, almoçarmos juntos e fazermos um pouco de convívio, visto que teria sido num
domingo.
Quanto diferente era a situação da que tínhamos previsto!
Mesmo assim, embora não conseguisse abrir os olhos, tive a impressão de que todo o pessoal do
Centro estivesse à nossa espera.
"Vamos dar-lhe uma injecção de penicilina e uma de vacina anti-tetânica." Disse-me um
enfermeiro. "Tem umas feridas na testa e no couro cabeludo. Vou rapar-lhe e dar alguns pontos."
Logo senti uma lâmina passar sobre a cabeça com a impressão de que me arrancassem os cabelos.
Não abri boca, para não pôr em embaraço o enfermeiro. Mas não foi preciso dizer nada. Ele mesmo
viu que era impossível e desistiu. Só me deu dois pontos para aproximar um pouco as margens.

Senti uma mão que me pegava num braço.
"Sou padre Miguel Moto, o pároco de Maganja. Como está, padre?"
"Dói-me muito, mas estou vivo, graças a Deus. Pode dar-me a absolvição?"

Apesar da gravidade da situação, não tinha a impressão de estar em perigo de morte, pelo menos de
momento.
Talvez fosse porque sentia que a vida não me estava a fugir, mas não experimentei nada do que se
ouve dizer acerca de semelhantes ocasiões: que a vida toda passa em frente como num filme, e que
num só olhar se abraça tudo o que fizemos e fomos, desde a primeira infância até ao momento
presente.
Não me passou nada em frente, da minha vida passada e não me lembrei de nada, nem de bem nem
de mal.
Era como se tivesse começado a viver quando acordei, depois do acidente.
Nem tinha ideia de que poderia dizer na confissão. Só disse :"Senhor tende misericórdia de mim."
Senti o padre Miguel que começara a administrar-me o sacramento da unção dos enfermos. Senti a
sua mão que me traçava uma cruz com o óleo santo em qualquer lado da cabeça e dizia:
"Por esta santa unção e pela sua piíssima misericórdia, te perdoe Deus todos os teus pecados, em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo."
"Ámen! Obrigado padre Miguel"

Passou um tempo em silêncio.
"O Director Provincial mandou uma avioneta para o levar até Quelimane - disse-me a enfermeira
Lúcia-. O técnico Arijama conseguiu falar com o director e daqui a pouco ela há-de chegar na pista
aqui atrás do Centro.

Reconheci a voz do enf. Hélder da sala de reanimação do hospital provincial.
"Já cá estamos, doutor Marchesini. Num instante vamos chegar a Quelimane e vai ver que tudo
ficará bem. Entretanto vou pôr-lhe um soro de Ringer na veia. Aperte bem o punho… Eis: já está!"

"Aldo, come stai? - senti dizer-me em italiano - Sou padre Sandro. Disseram-me que havia um lugar
no avião e assim aproveitei para vir eu também e ver como estavas."
"Obrigado!" A vinda do meu confrade me deu conforto e coragem. Estava longe de imaginar que
alguém da nossa congregação pudesse vir ao meu encontro até Maganja.
Sistemaram-me na avioneta, mas desta vez controlei-me melhor e não gritei.
Começou o vôo. A um certo ponto reparei que, apesar das tentativas, não conseguia engolir mais a
saliva.
Tentei várias vezes: em vão!
Fiquei muito preocupado: meses antes tinha assistido um senhor português que morreu de raiva. Ele
também começou com a paralisia dos músculos da deglutição, para acabar depois com uma
paragem respiratória.
Eu tinha batido a cabeça com violência e esse sintoma pensei que pudesse ser um sinal de
hematoma cerebral que intersectasse os núcleos da base do cérebro.
Chamei o padre Sandro e confiei-lhe a minha preocupação.
"Não sejas tão dramático! Calma, calma... Respira bem, tranquilamente. Relaxa-te um pouco e
depois experimenta de novo."
Obedeci-lhe. Respirei fundo até sossegar-me. Experimentei de novo a engolir a saliva. Desta vez o
reflexo activou-se e consegui engolir.
Apertei-lhe a mão. "Consegui!" disse-lhe.
"Coragem, é compreensível que estejas nervoso e te assustes. Tudo acabará bem, vais ver".

A avioneta aterrou no aeroporto de Quelimane. Quando a porta se abriu senti a voz da enfermeira
Paulina, anestesista do bloco operatório, e apercebi-me de que a Dna. Lúcia estava a chorar
abraçada a ela.
Senti que me mexiam. Provavelmente estava sobre um colçhão que devia ter servido de maca
durante o transporte. Houve um mau jeito e uma dor imprevista rebentou na raiz do pescoço. Não
consegui controlar-me e lancei um outro grito assustador.
Colocaram-me num carro e seguimos para o hospital.

Quando me puseram na maca, na entrada do banco de socorros, mesmo sem poder ver nada, tive a
impressão de que havia muita gente, mas não ouvi palavra nenhuma.
Fui imediatamente levado aos Rx, para ver em que condições estavam as vértebras cervicais e a
cabeça. Enquanto passava pelo corredor ouvi várias vozes de colegas: a notícia devia ter voado e
muitos tinham vindo ao hospital.
Com grande cuidado puseram-me um colar em volta do pescoço, mas senti que não me segurava
bem. Lembrei que eu mesmo tinha colocado, três ou quatro dias antes, o último daqueles novos a
uma paciente tetraplégica, que tinha caído de um camião. O meu devia ser o colar antigo, de duas
metades que se uniam de lado com fita auto-adesiva. Fiquei contente com esse pormenor, por duas
razões. A primeira era porque tinham respeitado aquela doente, bem mais grave do que eu e a
segunda, porque isso queria dizer que ela estava ainda viva!

Senti a voz do Dr. Vicente que me segurava o pescoço fechado no colar durante as viragens na sala
dos Rx, para tirar a chapa frontal e aquela de perfil.
Enquanto esperávamos que as películas se revelassem, alguém me apresentou o novo ortopedista
cubano, de que estávamos à espera desde um bom tempo, e que tinha chegado mesmo naquele
domingo com o voo da manhã, proveniente do Maputo.
"Chama-se Dr. Toni" Disse-me alguém.
"Estendi a mão em frente de mim, esperando que ele estivesse perto.
"Prazer. Chamo-me Marchesini." Senti a sua mão que apertava a minha.
"Não contava certo ser o seu primeiro paciente!"

Dos Rx levaram-me para a sala de reanimação. Tiraram-me a camisa, cortando-a com uma tesoura
e enfiaram-me as calças do pijama.
Sistemado na cama aproximou-se o Dr. Carlos, o meu colega cirurgião cubano.
"O Dr. Marchesini sabe que teve um grave traumatismo. Mesmo que não tenha defesa abdominal
existe a indicação para lhe fazer uma punção e deixar-lhe um catéter, para detectar se houver sangue
na cavidade."
E, assim dizendo, espetou-me uma agulha na fossa ilíaca esquerda.
Quantas vezes tinha sido eu a fazer isso a pacientes acidentados! Sempre encorajava dizendo que
não doía nada e agora, em frente dos colegas e dos enfermeiros, não podia fazer a figura de me
queixar. De facto, porém, doeu. Mas não abri a boca. Só fiz o propósito, interiormente, de mudar a
frase: "Coragem, não vai doer nada", para uma mais perto da verdade, como: "Vou picar na barriga
para ver se tem sangue. Isso vai doer um pouco, mas tenha coragem, é questão só de poucos
segundos."
A situação de acidentado fizera-me passar para o lado oposto daquele que estava acostumado a
ocupar e já, nas primeiras horas, começava a minha nova aprendizagem prática.

"Sangue não se encontra, de momento, mas, se tiver um pouco, há-de sair pelo catéter que vou
deixar."
"Que mostraram os Rx?" perguntei ao Dr. Carlos.
"Nada! Não tem fracturas."
"Tenho uma dor tão forte que me parece impossível que não tenha nada."
"A contusão foi muito forte. Agora fique sossegado, na cama, com o colar. Pouco a pouco há-de
passar."
Aquela resposta não me convenceu nada, mas compreendi que, ao próprio acidentado,
especialmente se é um médico, é melhor não comunicar notícias assustadoras, logo no primeiro dia.
Por isso calei e não insisti mais.
"Vamos tirar o penso e ver a ferida. Ah, precisa mesmo duma boa sutura! Hélder, pode trazer o
material, por favor?"
Sentir a agulha furar a pele da testa e do couro cabeludo não foi nada agradável, mas mesmo assim
não disse nada. Não podia estragar a bela figura que tinha acabado de fazer, na altura da punção
abdominal!
"Por enquanto acabamos" disse-me o Dr. Carlos.

Fiquei na cama, em silêncio. Desde esse momento passei a ser um dos doentes da sala de
reanimação.

Não passou, porém, meia hora, e o enf. Hélder veio mexer-me dizendo:
"Vamos pô-lo na maca para ir ao aeroporto. O senhor ministro mandou uma avioneta buscá-lo. Ela
chegou e já está na pista."
Senti que me transportavam para a saída do banco de socorros e me carregaram num carro.
A enf. Lúcia cumprimentou-me:
"Adeus, doutor. Boa sorte e faça boa viagem!"
"Obrigado, Dna. Lúcia. Obrigado por toda a ajuda que me deu."
Estendi a mão, para lha apertar, mas entretanto tinham começado a enfiar-me no carro e,
evidentemente, já não estava perto. A mão ficou no ar, mas esperei que ela, pelo menos, tivesse
ouvido os meus agradecimentos.

A luz do dia filtrava ainda através das pálpebras fechadas e sentia gotas frias de chuva picarem-me
gentilmente na cara, quando, no aeroporto, me passaram do carro para a avioneta.
"O Dr. Carlos vai acompanhá-lo até Maputo." Disse-me o Dr. Atílio, o director provincial.
Num instante fui sistemado sobre um colchão, fecharam-se as portas e logo ouvi os motores
arrancarem.
Sabia que Maputo distava perto de mil e quinhentos quilómetros em linha de ar. Com o Boeing
levava-se uma hora e meia, com uma avioneta deviam ser necessárias três ou quatro horas.
Preparei-me interiormente a saber esperar com paciência. Bem cedo, com o cair da noite e com o
subir em cota, a temperatura baixou. Na pressa tinha sido evacuado a tronco nu, com as calças do
pijama e um lençol por cima. Comecei a tremer com todo o corpo e a bater os dentes, mesmo como
acontece durante um ataque de malária. Chamei o Dr. Carlos e pedi-lhe para ver se havia algo para
me cobrir.
"Vou perguntar ao piloto." Mas logo voltou dizendo que a bordo não havia nada. Devia fazer-me
coragem e resistir assim, até chegar ao Maputo.
Não respondi nada. Era uma ocasião para fazer experiência duma situação, nova para mim, mas
extremamente comum. Quanta gente em Moçambique não tinha o suficiente para se cobrir e
suportava com paciência esse sofrimento? Estava a aprender mais uma coisa!
Procurei evitar pensar nas horas que devia ficar assim. Concentrei-me no presente, parando os
pensamentos.
Lembrei-me da experiência que tinha começado a fazer, no ano anterior, de provar a ficar imóvel e
sem pensamentos seguindo a tradição dos monjes budhistas que praticam essa forma de meditação
chamada "zazen". Nunca teria pensado que me pudesse socorrer numa situação como essa! Mas
quanto ao frio não me ajudou em nada. Continuei a tremer e a bater os dentes até quase à aterragem!

Na pista do aeroporto do Maputo havia uma ambulância verdadeira, apetrechada para transportar
acidentados. Senti enfiar-me por baixo das costas uma maca rígida, feita de duas metades que se
juntaram com um click metálico. Pegaram-me num dos braços e mediram-me a tensão.

A ambulância parou no banco de socorros do hospital central e fui transportado para dentro. Senti
tocar-me num braço:
"Sou padre Madela. Estamos todos contigo. Conta connosco"
"Obrigado! Avisa minha irmã e meu irmão, mas cuida que os meus pais não saibam nada. Não me
lembro dos números de telefone, mas no secretariado das missões de Milão sabem-nos."

Levaram-me para tirar novos Rx. A seguir o neuro-cirurgião de serviço se apresentou e perguntou-
me o que é que sentia. Disse-lhe que só me doía muito o pescoço e que sentia formigueiro na mão
esquerda. O resto do corpo não me incomodava. Fez-me um exame neurológico, conseguiu forçar
as pálpebras a abrirem-se e me deitou um raio de luz directamente sobre as pupilas que me feriu
como se fosse uma faca. Que sensação desagradável! Pareceu-me quase uma verdadeira agressão.
"Mais uma lição para mim! -pensei- Devo lembrar-me disto, quando examinar o reflexo pupilar aos
pacientes que têm os olhos que não se abrem: a luz fere dolorosamente a vista muito mais do que
imaginava."
"Doutor Marchesini -concluiu o colega- as vértebras cervicais sofreram, mas não há sinais de lesões
neurológicas. Tem apenas uma diminuição da força muscular na mão esquerda, mas pode ser efeito
da pancada. Por agora não corre perigos. Já tem o colar. Fique sossegado esta noite e com dieta zero
até amanhã, para ficar pronto, no caso seja necessário intervir."
"Boa noite! - era, desta vez, a voz do Dr. Carlos- Até Maputo chegamos bem. Agora vou dormir.
Amanhã de manhã passo a ver como está, antes de voltar para Quelimane."
"Obrigado por tudo, Dr.Carlos. Boa noite."

Fiquei sozinho, em silêncio. Tinham-me ligado ao monitor cardíaco e cada batimento do meu
coração era assinalado por um poderoso "bip".
Veio uma enfermeira controlar o soro. Perguntou-me se tinha urinado durante o dia.
"Não -disse- nem sinto necessidade."
Apoiou-me uma mão acima do púbis.
"A bexiga, porém está cheia. Vou trazer-lhe o urinol."
Tentei urinar, mas em vão. Naquela posição não conseguia.
"Tenha paciência, mas é necessário passar-lhe uma algália."
"Esta escola de eu ser doente nunca acaba de me dar aulas!" pensei.
Assim experimentei também essa. A entrada da primeira parte foi desagradável, mas aceitável. O
superamento dos últimos centímetros, quando a algália forçou a resistência das paredes da próstata,
foi, pelo contrário, dolorosa e, em vez de borracha, pareceu ser de ferro.
Mas também essa experiência passou sem queixas.
"Não é nada simples a vida dum hospitalizado. -pensei- É muito instrutivo para um médico passar,
pelo menos uma vez, para o lado dos doentes"

Voltou o silêncio, cortado só pelo bip que registava os batimentos do meu coração.
Incomodava um pouco, é verdade, mas, enquanto dava sinal, queria dizer que, pelo menos, o meu
coração batia e eu continuava vivo…

Senti a dor diminuir de repente. A enfermeira, com certeza, devia ter injectado na veia - sem dizer
nada - através do sistema de soros, um analgésico e eu consegui adormecer profundamente.


Fui acordado de manhã pela voz da Dra. Teresa Couto, a directora da neuro-cirurgia.
Entrou com alguns outros colegas e examinaram-me mais uma vez.
"Doutor Marchesini, vou dizer-lhe abertamente o que tem, de modo a colaborar em pleno connosco.
Como médico, é bom que saiba tudo. Na cabeça sofreu uma fractura da fossa anterior da base do
crânio. É por isso que o hematoma lhe inchou as pálpebras e não consegue abrir os olhos. No
pescoço tem uma fractura e uma luxação da segunda vértebra cervical, mas, milagrosamente não
tem nenhuma lesão medular. O formigueiro e a perda de força da mão esquerda devem ser devidos
a um sofrimento do plexo braquial, provocado provavelmente pelo cinto de segurança durante as
viravoltas do carro. Nestas fracturas cervicais o tratamento é a tracção. Vamos agora aplicar-lhe um
compasso no crânio em anestesia local. Vamos fazer tudo aqui na cama, sem irmos ao bloco
operatório. As pontas do compasso vão penetrar com muito poucas dores. O osso é insensível e o
perióstio fica anestesiado com a anestesia local."
"Está bem. Estou de acordo" respondi.
Daí a poucos minutos tudo estava pronto e o compasso foi aplicado. Doeu, de facto, muito pouco.
"Agora vamos aplicar-lhe uma tracção de seis quilos e meio. Como a luxação é recente, até à noite
devia já reduzir-se. Vamos pôr dois calços debaixo dos pés da cama do lado da cabeça, para fazer a
contra-tracção: os pesos puxam de um lado e o corpo do outro. Vai ver que a dor do pescoço
começará a diminuir, na medida em que as vértebras irão realinhar-se. Devo dizer-lhe que a tracção
deve ser mantida durante seis semanas, até o calo ósseo começar a consolidar."

Fixaram uma roldana na cabeceira da cama, que levantaram sobre dois calços, ligaram uma corda
de nailon ao compasso e aplicaram um peso de seis quilos e meio.
A dor do pescoço iniciou a diminuir de maneira imperceptível, mas progressivamente. Em
compensação a tracção começou a pôr em tensão as junturas todas, os músculos, os tendões, os
ligamentos e quantas outras estruturas podiam ser esticadas. Sentia um mal penetrante, difuso,
surdo, com uma característica de inesorabilidade e de continuidade que me esmagava. Como
poderia aguentar assim durante seis semanas?

A Dra. Teresa passou depois de meia hora para ver como me estava adaptando.
"É uma dor que não deixa folga e que penetra até ao âmago do meu corpo. Sem ajuda de
analgésicos não hei-de aguentar."
"Olhe, o Dr. Marchesini tem uma fractura da base do crânio e passaram apenas 24 horas do
acidente. Sabe que pode surgir a formação de um hematoma e, se formos aplicar morfina, a
consciência poderia ficar alterada e depois não distinguiríamos mais entre o obnubilamento devido
ao hematoma e o devido ao estupefaciente. Mais uma vez pedimos a sua colaboração e
compreensão. Podemos dar-lhe um analgésico menor, tipo ácido acetilsalicílico intravenoso."
"Vamos tentar." respondi.
"Coragem, Dr. Marchesini! A coisa é muito séria e o doutor tem de aguentar. O perigo da
tetraplegia ainda não passou. À noite vamos tirar um Rx de controlo para ver se as vértebras se
realinharam. Até logo."

Pela segunda vez senti Jesus crucificado, vivo ao pé de mim, como lá na estrada e, desta vez, tive
acesso a penetrar numa dimensão nova da sua paixão. Uma dimensão na qual nunca tinha fixado a
atenção: a sua duração, o seu permanecer durante o tempo, um tempo que tinha parado de escorrer,
um tempo feito só dum terrível, imutável presente! Que drama assustador a falta de perspectiva de
alívio, a sua definitividade… Saboreei a amargura terrível do seu ânimo, aquela sua dor infinita que
continuava: como conseguir aguentar horas e horas, quando um só minuto era longo como uma
eternidade? A sua proximidade interior confortou-me: já não era sozinho no experimentar a
amargura duma dor cujo fim está atrás do horizonte.

Chegou a enfermeira com a primeira injecção. Daí a pouco a dor abrandou e consegui adormecer.
Quando acordei senti a voz da enfermeira Matilde, que se oferecia para me assistir durante todo
aquele primeiro, difícil dia.

No fim da jornada senti-me tocado num braço. Era o técnico dos Rx:
"Boa tarde, doutor. Trouxe o aparelho de Rx portátil para fazer o controlo. Desta vez tem que ser na
cama, por causa do compasso e da tracção."
Grande perícia foi posta em acção para conseguir tirar o plano lateral, ficando eu na posição supina.
"Vamos ao departamento para revelar as chapas. Boa tarde."

Passada meia hora entrou a Dra. Teresa.
"Boas notícias, Dr. Marchesini. A segunda vértebra cervical já voltou ao seu lugar. O perigo da
tetraplegia praticamente passou."
"Graças a Deus! Obrigado, doutora pela sua ajuda! Quem teria dito, na quinta feira passada, que a
primeira cabeça a usar o compasso seria a minha?"
"É bem verdade: mesmo ninguém!"

Era uma segunda feira aquele dia. Na semana anterior a Dra. Teresa tinha ido a Quelimane para
uma visita de supervisão no programa de neuro-cirurgia nas Províncias. O tema era: fracturas do
crânio e luxações das vértebras cervicais. Tinha levado consigo três compassos novos que tinham a
possibilidade de serem enfiados nos ossos do crânio sem o doente sair da cama, pois era suficiente
injectar um pouco de anestesia local no couro cabeludo, um centímetro ou dois acima das orelhas,
fazer um cortezinho na pele com a ponta do bisturi, apoiar as pontas do compasso contra a região
temporal e parafusar até os ponteiros entrarem solidamente nos ossos. Perigo de penetrar no cérebro
não havia, porque os ponteiros tinham um comprimento que era a metade da espessura do osso
naquela região.

Eu tinha ficado radiante com aquela oferta, pois, até então, quando era necessário colocar uma
tracção cervical, devia usar um estribo para as fracturas de fémur, armado com dois fios de
Kirschner, que serviam de pontas para penetrarem numa espécie de cova aberta nos ossos temporais
com o broquim. Um trabalho duma certa dificuldade, que levava perto de uma hora, no bloco
operatório.
A oferta da Dra. Teresa abria uma nova era no campo das luxações das vértebras cervicais em
Quelimane. Mas eu queria fazer uma prova prática. Na falta de acidentados, trouxera para o
hospital, na quinta feira anterior , um coco inteiro, com a sua casca e todos nós da cirurgia fizemos a
prova de espetar esse compasso na noz de coco, imaginando que fosse uma cabeça humana.
A satisfação foi geral.
A quatro dias de distância, era eu a fornecer a primeira cabeça e devo dizer que aquela prova, feita
por mim poucos dias antes, contribuiu bastante para que oferecesse sem medo o meu crânio, em
lugar do coco, às pontas do compasso.


6


A parte de emergência do meu tratamento estava assim concluída.
Começava agora a fase de manutenção. A sua duração já tinha sido fixada: seis semanas. Era
preciso organizar uma forma de assistência contínua, pois aquela imobilização da cabeça punha-me
na condição de precisar sempre de alguém ao meu lado, para me mexer, para me dar de beber, para
me oferecer a arrastadeira e o urinol, para me lavar e para qualquer outra necessidade que pudesse
surgir.

Estas preocupações estavam ainda longe da minha cabeça, toda empenhada em recuperar a lucidez
e em encontrar a maneira para superar as horas de dores.
Tinham passado menos de 48 horas do acidente, e ainda não tinha conseguido abrir os olhos.

A noite que se seguiu, com a Ana Maria, foi muito agitada. Apesar das injecções de quatro em
quatro horas, as dores ocupavam uma grande parte do tempo, mas sobretudo transbordavam do alvo
do meu corpo físico para invadirem tudo o que eu era: pensamentos, emotividade, lembranças,
fantasia, vontade…A totalidade do meu ser era empenhada nessa luta e parecia-me não haver
fissuras por onde a consciência pudesse fugir e lugares onde refugiar-se.
A impossibilidade de me virar de lado tornava ainda mais dura essa situação. Era um contínuo pedir
à Ana Maria para puxar o lençol, agora para esquerda, agora para a direita, a fim de rolar com o
corpo de um quarto de giro para o lado oposto. Quando a injecção abrandava as dores, o sono era
angustioso, agitado, fragmentado. Cada poucos minutos acordava assustado.
Passou assim a primeira noite de tracção. Quando Ana Maria foi para casa, de manhã, mais do que
agradecer-lhe, sentia necessidade de lhe pedir desculpa.

De manhã cedo passou o Dr. Carlos para me cumprimentar e saber como estava. Ia para o aeroporto
para regressar a Quelimane. Agradeci-lhe muito pela ajuda que me tinha dado. Soube depois, mais
tarde, que tinha passado a primeira noite sobre uma cadeira…

Quando a Ana Maria saiu, deixaram entrar o padre Madella, para me saudar e trazer sumos de fruta.
Ele disse-me que havia fora um aviso que proibia as visitas, mas que os médicos iriam deixar que
pudesse ficar uma pessoa, sentada ao meu lado, com a recomendação de ficar calada. Ele tinha já
começado a recolher as disponibilidades de muitas pessoas que me eram amigas, em maior parte
irmãs, mas também confrades e leigos, em prevalência originários de Quelimane.
Já naquela tarde podiam começar a entrar.
Disse-me também que fora do quarto, quer na noite em que cheguei, quer durante o dia de ontem e
mesmo agora, era todo um vai-vem de pessoas amigas que queriam ver-me ou pelo menos saber
como estava.
A delegação de Quelimane de Rádio Moçambique, no jornal da manhã em cadeia nacional, tinha
dado notícia do acidente, de maneira que todos os que me conheciam já o sabiam.
A ouvir essas coisas senti a comoção pegar-me na garganta e tive que fazer um grande esforço para
deitar as lágrimas para trás.
"Coragem!- disse-me o pe. Madella - muita gente te quer bem e todos rezam por ti!"
A voz não conseguiu sair. Apertei-lhe a mão em quanto me dizia que voltaria ao meio dia.

Depois dele sair comecei as tentativas para ver se conseguia abrir um pouco as pálpebras. Comecei
a esfregar delicadamente com a mão sobre as pestanas da direita. Senti que além do inchaço havia
secreções que tinham secado e que funcionavam como cola. Pouco a pouco desprenderam-se e com
um dedo consegui levantar a pálpebra e voltei a ver algo, depois de dois dias em que o contacto com
o ambiente tinha passado só pelos ouvidos e pelo tacto.
O voltar a ver encheu-me de alegria e passei, com entusiasmo, a libertar as pestanas de esquerda.
Esta pálpebra estava menos inchada do que a direita e consegui abrir uma pequena fissura sem o
auxílio dos dedos. Pareceu-me ter dado um passo mesmo fundamental!
Logo a seguir veio a enf. Matilde e radiante comuniquei-lhe a grande notícia. Foi assim que me
deixou o seu relógio para poder saber as horas.

Estas novas tinham-me dado mais coragem, mas a situação de sofrimento continuava.
Naquela manhã não podia ficar ninguém ao pé de mim.
Consegui ver o tecto do meu quarto e a parte mais alta das paredes. Parecia-me que no lugar da
porta havia uma cortina. Se precisasse de algo podia chamar, que as enfermeiras ouviriam.

Aquele bip de monitoragem do meu coração tinha durado todo o dia anterior e toda a noite. De
repente começou a prender a minha atenção e a penetrar-me no cérebro e na consciência com uma
inesorabilidade intolerável. Procurava distrair-me, não fazer caso dele. Era impossível. O efeito da
injecção acabou e a dor do esticamento veio a acrescentar-se ao tormento acústico do bip. Parecia-
me estar quase a explodir. Chamei a enfermeira de serviço. Acorreu logo.
"Senhora enfermeira, esse bip está a tornar-se um tormento insuportável para mim. Não será
possível desligá-lo?"
"Vou perguntar ao médico de balcão."
Voltou passados dez minutos.
"O doutor disse que se pode desligar, pois a sua situação já está estabilizada."
Carregou num botão e logo um silêncio restourador reinou no quarto.

Fiquei à espera da hora da injecção.
A um certo ponto senti alguém entrar silenciosamente. Abri a fissura do olho esquerdo para ver se
era já a enfermeira com a seringa. Era o Dr. Zilhão, o ministro da Saúde. Éramos velhos amigos,
dos tempos de quando trabalhávamos ambos na província de Tete, quase vinte anos atrás.
"Como vai?"
"Bem. Só as dores…Mas o importante é que escapei!"
"Escapou mesmo! Coragem. É preciso ter muita paciência. Estimo-lhe as melhoras!"
"Obrigado!"

Passou um tempo ainda e senti uma pessoa ao pé de mim. Abri o olho esquerdo: era a Dra. Teresa
Schwalbach, a directora do serviço de anestesia. Ela também era uma velha amizade dos meus
primeiros anos de Moçambique. Sentou-se ao pé de mim.
"Hoje está acordado. Que bom! Quando passei, ontem, estava a dormir e não quis importunar. A
notícia do seu acidente assustou-nos a todos, mas parece que já está fora do perigo. Como vão as
dores? Aquela tracção deve ser dura de suportar…"
"Um pouco! Dói muito quando acaba o efeito do analgésico. Mas espero que com o tempo a
situação melhore."
"Como é que faz a comer, com a cabeça assim presa e em extensão?"
"Não sei. Ainda não comi nada. Só tomei uma sopa ontem e bebi um pouco de sumo. É que não me
apetece comer nada."
"O apetite há-de voltar. Ainda não passou o choque da grande pancada. Mas sumos de fruta deve
tomá-los! Sabe que agora vendem sumos naturais de muitos frutos. São feitos aqui em Moçambique
e são mesmo bons. Diga lá que gosto prefere, que vou mandar-lhe já alguns. Há de mangas, de
ananás, de litches, de laranja…"
"Ah, sim, de litches é que gosto muito!"
"Bom, daqui a pouco vou mandar-lhe alguns."
Ficou ainda alguns minutos e depois despediu-se.

Passada meia hora entrou a enfermeira com algumas embalagens.
"É a Dra. Teresa que lhes manda estes sumos. Recomendou-me para que lhe faça beber já o
primeiro."
"Sim, sim, obrigado."
Enfiou um tubinho na embalagem de cartão e colocou-mo entre os lábios. Chupei sem dificuldade
nenhuma. Ah, que bem me soube! Fiquei grato à Dra. Teresa. Como foi gentil!

Ao meio dia chegou o pe. Madella. Trazia sopa e um pouco de galinha. Mas eu continuava sem
vontade de comer. Estava com ele a irmã Maria Olinda, uma velha amiga dos tempos de
Quelimane, que trabalhava no Maputo desde três ou quatro anos. Era para mim como se fosse
minha irmã. Com ela sentia-me plenamente à vontade.
Ficou sentada ao pé de mim, fiel às ordens de não me fazer falar. Pedia-lhe, de vez em quando para
puxar o lençol para um lado, para ficar um pouco aliviado.

Apesar das injecções, não conseguia apanhar sono nos intervalos sem dores. Só ficava obnubilado,
com pesadelos e imagens enigmáticas e aflitivas, que nem eu sabia reconhecer a que se referiam.
Só me confortava, quando abria o olho esquerdo, a vista da irmã Olinda que vigiava sobre mim.
Chegou a noite e voltou o pe. Madella com uma outra irmã. Era enfermeira e estava de passagem
por Maputo, onde devia ficar duas ou três semanas. Nunca a tinha conhecido. Era originária do
Venezuela e chamava-se irmã Lupita.
"Lupita?" Perguntei.
"Maria de Guadalupe. Guadalupita. Lupita. Simples!"
Apesar de nunca me ter visto, ficou logo à vontade, com aquela capacidade de entrar imediatamente
em relação que os Latino-Americanos têm a fama de ter. E ela, com efeito, tinha essa qualidade em
medida eminente!
A noite passou agitada, como a precedente.

Passaram assim mais dois dias.
A falta de um sono verdadeiro começava e ser muito pesada. Quando passou a Dra. Teresa Couto, a
responsável dos médicos que me tratavam, pedi para que me desse algo para poder dormir.
Ficou um pouco embaraçada.
"O seu cérebro apanhou uma grande pancada e ainda não acabou o perigo. Não é muito conveniente
deprimi-lo com um hipnótico. Vou discutir o caso com os colegas"
À tardinha veio o neuro-cirurgião de serviço e comunicou-me que tinham combinado para me dar
carbamazepina, uma droga geralmente usada como anti-epiléptica, bem tolerada por um cérebro em
sofrimento e que tinha um bom efeito para induzir o sono.
À noite a enfermeira veio trazer o comprimido.
"É carbamazepina." Anunciou-me. Esmagou-a em pedacinhos e engoli-a sem dificuldade.

Dormi, com efeito, toda a noite, mas sonhei com camisas num relvado, cravadas no solo e
embrulhos brancos, amarrados com uma corda, que me perseguiam como cães na caça a um
ladrão…



7


Irmã Olga tinha ficado ao pé de mim, sentada em silêncio, durante um longo tempo.
Nesse silêncio podia eu continuar a ficar, à vontade.
Mesmo sem ter aberta a boca, pareceu-me ter-lhe contado toda a história dos primeiros dias. O
dela era um silêncio cheio de atenção e de disponibilidade.

Naquela noite tinha dormido profundamente, pela primeira vez, mas o sofrimento espiritual tinha
sido bem pior do que o sofrimento por não conseguir dormir.
"Se o dormir traz sonhos tão terríveis, prefiro ficar acordado e sentir as dores."
Disse isso em voz alta, como se a irmã tivesse assistido aos meus sonhos.
"Ah, sim?" limitou-se a comentar a irmã Olga.

Fiquei cheio de admiração pela delicadeza e respeito da irmã, que sabia tão bem controlar-se sem
fazer perguntas que me levariam a falar muito. Compreendi, todavia, que aquele "Ah, sim?" era
cheio de interesse sincero, além de ser de respeito.
Contei-lhe, então, os dois sonhos. Queria dizer só poucas palavras, mas depois entrei nos
pormenores. Narrá-los fazia-me bem: ajudava-me a relativizar o impacto extraordinário que tinham
tido sobre mim.

Quando os médicos passaram contei-lhes da angústia que aqueles sonhos me tinham provocado.
"Bem - comentaram - a culpa da carbamazepina pode ter sido apenas a de lhe ter permitido
adormecer profundamente. O conteúdo e a cor sombria deles poderiam ser, mais facilmente, o fruto
do estado de sofrimento em que o seu cérebro ainda se encontra. De qualquer maneira esta noite
vamos dar-lhe qualquer coisa de muito suave, que o ajude também a ficar mais sereno."

À noite foi-me dado clordiazepóxido, um tranquilizante muito leve.
Mesmo assim os sonhos foram assustadores e agitados.
Na manhã seguinte pedi para não tomar mais nada. Era preferível a dor física àquele sofrimento
interior.

A noite seguinte foi mais serena, mas as dores continuavam severas nos intervalos de tempo sem a
protecção do analgésico. O sono era muito fragmentado e o amanhecer parecia que nunca chegasse.

Decidi-me a pedir aos médicos para tentar controlar as dores de outra maneira, com mais
continuidade, se fosse possível.
O sofrimento do cérebro impunha limites, disseram-me, mas iriam estudar alternativas e logo
viriam dizer.

Ao meio dia a enfermeira veio sem seringa.
"O tratamento foi mudado. Em lugar de acetilsalicilato na veia, prescreveram comprimidos. É uma
associação de dois diclofenac de 25 mg com um paracetamol de 500 mg. Como vamos fazer para os
engolir?"
"Assim inteiros tenho medo de me engasgar, vista a posição. Pode esmigalhá-los por favor?"
"Está bem"
Daí a um minuto veio com uma colher cheia de pedacinhos. Esvaziou-mos delicadamente na boca:
aatch, como eram amargos! A seguir enfiou-me um tubinho de sistema de soros entre os lábios,
enchi a boca "por metade" com água e com decisão engoli. Três quartos tinham passado! Repeti a
manobra e o resto desceu sem problema.
"Calma, calma!" disse a enfermeira. "Falta a segunda colher!".
Tudo bem, como antes.
"Os comprimidos são de oito em oito horas." acrescentou, antes de sair.

Entretanto os dias tinham começado a passar: era domingo e a primeira semana estava a completar-
se.
Por volta das dez tinha vindo, como todas as manhãs, a irmã Teresa das Filhas da Caridade, de
S.Vicente de Paulo.
Ela tinha já passado, há muito, os oitenta anos e vivia na comunidade da Matola, a uns quinze
quilómetros da cidade. Mesmo assim, três vezes por semana ela vinha ao Hospital Central visitar os
doentes mais abandonados: os que eram totalmente indigentes e os que não tinham ninguém. Nunca
vinha de mãos vazias: carregava sempre duas pastas bem cheias de termos com sopa, e depois pães,
bolachas, pedaços de galinha, fruta e mais. No espírito de amor à pobreza, bem como aos pobres,
vinha quase sempre com os meios públicos: de machibombo ou de "chapa". Eram chamados com
este nome aqueles camiões com um oleado por cima de uma armação metálica, para proteger os
passageiros do sol e da chuva, carregados de gente até rebentarem, que faziam serviço contínuo, de
vaivém, entre dois pontos fixos da cidade e dos arredores. O preço do bilhete era fixo, qualquer que
fosse a distância. A irmã Teresa fazia isso desde há mais de vinte anos. Quando era um pouco mais
nova, nos outros três dias ia visitar os presos da cadeia civil e da política.

Conhecemo-nos em 1978, um dia em que veio visitar a barragem de Cahora Bassa, ao pé da vila do
Songo, onde eu trabalhava naqueles anos. Tinha vindo, durante as férias, visitar a nova comunidade
das Filhas da Caridade aberta no Matundo, na outra margem do rio Zambeze, em frente da cidade
de Tete, a capital daquela Província. Daí as suas irmãs levaram-na a visitar as maravilhas da
barragem e da central eléctrica de Cahora Bassa. Ficaram hóspedes minhas e do padre António ao
almoço e depois, à tarde, houve tempo para conversarmos, sentados nos escabelos da varanda "das
tendas verdes". Esse nome vinha do facto que, num canto da varanda, bem vedada de rede
mosquiteira, o padre António e eu, tínhamos criado uma capelinha, delimitada completamente por
cortinas verdes, onde conservávamos a eucaristia, celebrávamos a missa, rezávamos o ofício em
coro, fazíamos a adoração e nos retirávamos a rezar nos tempos vagos.
Foi ali, ao pé das tendas verdes, que nasceu a nossa amizade. Os anos iam passando, mas a
comunhão sempre se manteve intensa, alimentada pela oração, pelas cartas e pelas visitas, cada um
ou dois anos, quando uma ocasião me levava ao Maputo.

A Irmã Teresa vinha sempre todas as manhãs. Nos dias em que não visitava os doentes, vinha só
para me visitar a mim. Tinha-se encarregado do serviço de me levar a comunhão diariamente e não
faltou uma única vez.
Veio também no primeiro dia, quando a ninguém, excepto à enf. Matilde, foi permitido entrar no
meu quarto. Eu não dei conta, sem poder abrir os olhos e assim confuso como estava. Ela, apesar do
grande afecto que me tinha, como a um neto, soube conter-se e não abriu a boca. Só - disse-me mais
tarde - ficou a chorar, em silêncio.
Tinha-me avisado que aos domingos não viria, porque as suas irmãs queriam que, com aquela
idade, descansasse pelo menos um dia por semana.
"Insisti tanto - disse-me toda contente, ao entrar - que, por fim, a madre superiora deu-me licença
para vir."

Além da comunhão trazia sempre um termos de dois litros de chá "placate", feito com as folhas de
uma erva tradicional, que se cultivava nos quintais da cidade e do campo.
Logo que soube que devia beber muito, e que a água simples me enjoava, prontificou-se a
assegurar esse serviço para o resto dos dias.
Cada manhã trazia sempre uma surpresa: uma papaia ou uma maçã ou uma pera ou uma banana.
Nunca chegava de mãos vazias. Quase todos os dias trazia também um ramo de flores do seu
jardim, que colocava num vaso ao pé da cama. Quando as enfermeiras começaram a congratular-se
pela gentileza do pensamento e pela beleza das flores, começou a trazer mais algumas para elas,
para ficarem na mesa do gabinete.
O chá placate tinha-se tornado a minha bebida exclusiva, além dos sumos de fruta que, após a
sugestão da dra. Teresa Schwalbach, o pe. Madela nunca me deixava faltar.

Depois de ter comido um pouco, ao almoço, senti que os comprimidos começavam a fazer efeito e
as dores tinham praticamente desaparecido. Dormi bem, umas duas horas.
Era domingo, aquele dia, e muitos tinham vindo para ver se era possível visitar-me.
As enfermeiras fecharam os olhos e deixaram passar as primeiras irmãs. Mas depois chegaram
mais e mais. Além das irmãs vieram também amigos e conhecidos, originários da Zambézia e de
Tete, as duas províncias onde estive a trabalhar.
O quarto era pequeno e o fluxo contínuo de pessoas induziu as primeiras chegadas a
cumprimentarem e sairem, para deixar o lugar. Quanta gente vi naquela tarde! Dei-me conta quanto
bem me queriam tantas pessoas que tinha conhecido até muitos anos atrás.
Quase todos diziam que já tinham vindo mais vezes tentar a sorte para passar, mas em vão. Hoje,
todavia, como era domingo, quiseram tentar mais uma vez e encontraram maior benevolência. De
qualquer maneira, fora da porta ainda ficava um aviso em letras cubitais que dizia "Visitas
Restritas".
Essa demonstração de afecto, que se somava às tantas e contínuas que ia recebendo desde os
primeiros dias, contribuiu muito a levantar-me o moral e a dar-me coragem para suportar tudo com
paciência: não podia cancelar da mente que ainda eram cinco as semanas que devia passar com a
tracção na cabeça.

Pouco a pouco as visitas saíram e fiquei com a irmã que me assistia. Era a irmã Teresa da
congregação das Filhas do Calvário. Ela também fazia parte das muitas pessoas amigas dos tempos
antigos, que o acidente me tinha feito reencontrar. Conhecemo-nos no Songo em 1978, quando ela
acabava de entrar em Moçambique, vinda de Espanha com duas outras irmãs. Eram as primeiras
missionárias que o Estado deixava entrar no País, depois do início da Revolução e da
Independência.
Eram enfermeiras as três e trabalharam comigo, naquele hospital rural, até à minha transferência em
1980.
Ela trabalhava agora num Centro de Saúde da Matola e, por isso, tinha livres só os domingos.
Tinha-se alistado com o pe. Madella para vir todos os domingos à tarde. Era muito delicada e gentil.
Preocupava-se com tudo e, se eu ficava calado longamente, espontaneamente perguntava:
"Não precisas de nada? Era bom beber um pouco. Já passaram quase duas horas da última vez.
Posso trazer-te um pouco de chá placate?"

Tinha chegado a hora do jantar. Eu costumava comer o que passava o hospital. O Ministério
oferecera-me a baixa nos quartos de atendimento especial do banco de socorros. O tratamento era
muito bom e até havia possibilidade de escolha da ementa no pequeno almoço, almoço e jantar.
Duas ou três horas antes das refeições principais passava o encarregado da cozinha a recolher a lista
dos pratos escolhidos.
Durante toda aquela primeira semana não tinha tido nenhuma vontade de comer. O stress do
acidente tinha bloqueado quase por completo o intestino: não comia praticamente nada e não fazia
necessidade maior. Não sentia nenhum estímulo, nem de longe.
Entrou a copeira com a bandeja. Tinha pedido sopa e frango com verdura, ambos cozidos na água,
quer porque eram fáceis de digerir, quer porque esperava que estimulassem a motilidade intestinal.
A irmã Teresa serviu-me com toda a delicadeza. Mas, nem dessa vez, consegui acabar. O facto de
não poder ver o aspecto da comida, que descia do alto para a minha boca, nem de poder sentir o seu
cheiro, com certeza contribuía a eliminar estímulos para o apetite.
Depois do jantar costumava comer uma fatia de papaia, a última que tinha ficado, do fruto trazido
de manhã pela outra irmã Teresa.
A seguir havia um rito ao qual não poderia renunciar por nada ao mundo: lavar os dentes. A irmã
punha a pasta dentífrica sobre a escova e eu escovava cuidadosamente. A seguir, com um abundante
golo de água bochechava e, por fim, engolia. Esta adaptação foi necessária inventá-la para vencer as
dificuldades quase insuperáveis, que se encontram ao tentar cuspir a água fora da boca ficando
numa posição rigorosamente deitada, com o pescoço em hiper-extensão e sem poder virar a cara
minimamente, nem para direita, nem para esquerda.
Depois limpava os lábios com um guardanapo ou a toalha.
Quando tudo acabava, então a irmã Teresa abria a sua pasta e puxava fora o jantar que tinha trazido
de casa e ficava a comer com o prato em equilíbrio sobre os joelhos, sentada ao pé de mim.
Com efeito, ela vivia longe, na Matola e, na hora em que conseguia chegar, as outras irmãs da casa
já tinham acabado de jantar.

A hora de rendição, à noite, era entre as 19,30 e as 20,30 horas.
Como sempre, chegou o pe.Madella a acompanhar a pessoa que ia ficar de noite.
Desta vez era a Dna. Ivety, a senhora que cuidava do andamento da casa de acolhimento e de
hóspedes da minha congregação no Maputo, desde há muitos anos. Tinha uma maneira de fazer
alegre e sempre bem disposta. Para ela parecia que nunca havia dificuldades. Com calma, paciência
e jeito tudo podia ser resolvido.
"Padre Aldo, trouxemos-lhe um sorvete como sobremesa. Visto que não come quase nada, um
geladinho podia completar um pouco a dieta. Que acha?"
"Uma ideia muito boa! Para o sorvete, antes do acidente, sempre encontrava um lugarzinho vazio.
Espero que se tenha mantido vazio até agora!"
Às colherinhas, uma atrás da outra, o sorvete acabou.
"Obrigado, Ivety! Esta surpresa concluiu dignamente este domingo de festa!"
Naquele momento entrou a enfermeira com os comprimidos das dores. Só então o pensamento das
dores voltou à minha consciência. Durante toda a tarde não tinham aparecido. Aquela associação
era mesmo boa!
Senti a exigência de exprimir a minha satisfação por isso, para que todos se alegrassem. Como me
tinham acompanhado na partilha das situações difíceis, assim achava muito conveniente e meu
dever comunicar também as novidades positivas. Todos, com efeito se alegraram e vieram apertar-
me a mão em sinal de congratulações. Aquela noite podia finalmente ser a primeira de sono
tranquilo.

A enfermeira saiu, seguida pela irmã Teresa e pelo pe. Madella.
A Ivety sentou-se e começou a contar-me as novidades da casa e os telefonemas que tinha recebido
de pessoas a perguntarem por mim.
No fim perguntou se queria também essa noite enfiar as almofadas de água debaixo do lençol, de
maneira a distribuir o peso do meu corpo sobre uma superfície adaptável às suas formas. Este
sistema tinha sido inventado para prevenir as escaras de decúbito, que se formam quando o corpo
apoiar o seu peso longamente sobre as pequenas superfícies do sacro, das omoplatas e dos
calcanhares.
Na minha situação elas não serviam para prevenir o sofrimento dos tecidos, pois tinha a capacidade
de fazer movimentos, apesar de limitados. Tinha tido a ideia de usar essas almofadas -mandando-as
vir de Quelimane - para aliviar a exigência, impossível a satisfazer, de virar sobre um flanco,
especialmente durante as horas da noite, quando o corpo exigia, por vezes dramaticamente, de
mudar de posição. Ficando com toda a superfície do meu corpo em contacto com as almofadas e
apoiando-me sobre elas, essa exigência de me virar diminuía bastante, e se tornava mais suportável
passar a noite.
"Sim - disse - é melhor darmos um passo de cada vez. Vamos pô-las, pois o impedimento a virar-
me no sono permanece."
Essa ideia tinha-me vindo depois das primeiras duas noites, quando ainda não conseguia mexer-me
e precisava do truque do lençol. Com certeza, essas almofadas conseguiam dar-me um certo alívio.
A noite passou razoavelmente bem .



8


Quando a Dra. Teresa passou, de manhã, ficou contente com a notícia de que as dores estavam
controladas e que de noite conseguia descansar melhor.
"Congratulações, Dr. Marchesini. Eu também tenho uma novidade: penso que a fase da emergência
já passou e que podemos transferi-lo para a enfermaria do Serviço de Urgências, logo que houver
uma vaga. Devo procurar um colar rígido para segurar o pescoço no transporte, pois deveremos
desligar a tracção, embora apenas durante poucos minutos."

À tarde a chefe da enfermaria veio com um colar para que o experimentasse, para ver se era da
minha medida e se apertava bem.
"Amanhã às onze vamos transferi-lo para o primeiro piso. Lá há de ficar à vontade: é um lugar mais
sossegado e o quarto é bastante mais amplo do que este."

No dia seguinte vi entrarem no quarto a enfermeira chefe com mais duas colegas e quatro
serventes.
A chefe colocou-me o colar.
"Sente-se bem seguro, assim?"
"Bem mesmo!"
"Então vou agora desligar os pesos do compasso. Se doer, avise."
O colar aguentou bem a segurar o pescoço, mas isso não impediu que eu provasse nas vértebras e
nas costas uma sensação estranha, como se o meu corpo, que me parecia feito de madeira, passasse,
repentinamente, a ser feito de pano.
Ajudaram-me a transitar da cama para a maca, cobriram-me com um lençol e senti-me levantar. A
cabeça continuava em hiper-extensão, rigidamente bloqueada , pelo que só podia ver o tecto dos
corredores desfilar sobre mim. Chegámos às escadas. Era preciso dar umas viravoltas complicadas e
os serventes que me transportavam ficaram um momento a discutirem como seria melhor fazer.
Avisaram-me que não me assustasse se me sentisse mexido bruscamente e inclinado para cima e
para baixo e logo começamos a" trepar" as escadas. A seguir houve outro corredor e depois um
quarto. Passaram-me para a cama e esperei que a enfermeira que tinha trazido a armação da roldana
a colocasse.
-"Atenção, que vamos ligar os pesos ao compasso"- disse-me a enfermeira chefe.
O gancho entrou na casa do compasso e uma mão deixou os pesos tenderem aos poucos a corda de
nailon. Senti o meu corpo de pano voltar a tornar-se de madeira!
-"Como se sente? Tudo bem?"- perguntou a chefe.
-"Tudo bem, obrigado"
-"Então vamos tirar-lhe o colar".
O pescoço já estava tão bem esticado, que a saída do colar não me incomodou nada.

9


Iniciava-se uma nova etapa da minha estadia no hospital. Tinham passado já nove dias do acidente
e entrava na fase de manutenção.
As dores devidas à tensão tinham desaparecido quase por completo com os comprimidos.
Começava a dar conta de outros pequenos inconvenientes, que dantes ficavam como que
encobertos.
Um deles era a dor provocada pelos ponteiros do compasso. Não era forte, todavia nunca parava.
Era uma daquelas dores de cabeça que são como que um pano de fundo, que fica sempre em cena,
mas que o ritmo da acção da peça teatral, muitas vezes, faz esquecer.
Havia duas irmãs, das que mais frequentemente vinham assistir-me, ambas latino-americanas, a
irmã Lupita, venezuelana e a irmã Fanny, equatoriana, que conheciam bem a técnica da massagem
da planta dos pés. Essa massagem plantar era uma forma de medicina ainda pouco conhecida no
mundo, baseada num fenómeno singular: existia na planta dos pés uma relação entre cada ponto e
os vários órgãos do corpo. Conhecendo qual era o ponto correspondente a um determinado órgão,
bastava massajá-lo, para influenciar beneficamente tal órgão.
Em particular, a cabeça tinha a sua projecção na extremidade dos dedos do pé. Bastava massajá-los
delicadamente para que um influxo benéfico fizesse dissolver a dor de cabeça como a neve ao sol.
Elas propuserem-me essa técnica, que me deixou um tanto céptico, todavia aceitei de bom grado,
visto que a cabeça me doía bastante, naquele dia.
Os primeiros minutos passaram sem alívio, mas, depois de mais ou menos um quarto de hora,
comecei a sentir a dor desfazer-se, como se fosse uma nuvem que se dissolvia. Ah, que benéfica
sensação! A massagem continuou ainda uns cinco minutos, para consolidar o resultado. A sensação
de bem estar permaneceu.

A minha condição de acamado punha-me na situação de receber contínuas manifestações de
amizade e solidariedade. Alguns dos meus confrades vieram repetidamente, conforme os
compromissos de trabalho o permitissem. O irmão Pedro e o padre Bellini vieram várias vezes e a
nossa amizade, que tinha começado há mais de vinte anos, teve ocasião de se fortificar bastante.
Outros confrades vinham frequentemente saudar-me e conversar, várias vezes por semana.
Também as irmãs residentes no Maputo ou de passagem pela cidade não deixaram passar a ocasião
para entrarem nos turnos ou para ficar uma meia manhã ou uma meia tarde comigo.
Eu conhecia já a maior parte delas, sobretudo as que tinham trabalhado comigo nas dioceses de
Quelimane e de Tete.
Apesar de terem passado, por vezes, mais de quinze anos sem nos termos visto, essa ocasião
conseguia mostrar como a amizade não ficara prejudicada por essas ausências prolongadas. Quando
vinham nos turnos, então, era um lembrar o passado e informarmo-nos sobre os acontecimentos
recíprocos desse tempo todo!
Algumas delas, porém, eram irmãs novas, junioras, que tinham feito os primeiros votos há pouco e
que eu tinha acompanhado durante o período de formação. Considerava-as mais como filhas de que
como minhas irmãs. Elas mostravam todo o seu afecto filial de mil maneiras, vindo muitas vezes e
ajudando-me com aquela frescura e carinho que tão bem faz ao coração de quem pertence a uma ou
duas gerações anteriores.
Devo dizer que este acidente foi uma ocasião extraordinária para eu poder descobrir tantos
aspectos, para mim novos, do mundo interior da feminilidade. Penetrei, duma maneira impensável
no coração feminino, nas suas manifestações de relacionamento, que evidenciam as finezas tão
amáveis de espírito materno, filial e de irmandade. Penso que essa descoberta foi uma das alegrias
maiores e um dos aspectos positivos mais importantes que recebi como consequência do acidente.

Durante a primeira semana de permanência no novo quarto começou a tornar-se preocupante a falta
de vontade para fazer necessidade maior.
Tinham passado mais de dez dias e nem de longe sentia a menor vontade de evacuar.
A Dra. Teresa, depois da primeira semana, começou, cada vez que passava, a perguntar-me sobre o
assunto e desde o início insistiu para que bebesse pelo menos dois litros de líquidos por dia, fora das
refeições. Foi assim que comecei a beber chá placate em grande quantidade. Era necessário
aumentar o volume do conteúdo intestinal para o tornar mais mole e o beber devia contribuir
bastante nesse processo.
Essa preocupação começou a alastrar-se a quase todos os visitantes. As irmãs enfermeiras
aconselharam-me a comer papaia com sementes. A irmã Teresa passou a trazer-me duas papaias por
dia, uma grande e uma pequena e eu comecei a penitência de comer a papaia com as suas sementes.
Para bem dizer, não é que as sementes fossem más , todavia aquele gosto, um tanto ácido e amargo,
tirava-me todo o gosto de comer duas ou três fatias.
Finalmente, ao terceiro dia, senti essa tal vontade e pedi a arrastadeira. Era a primeira vez na minha
vida, que experimentava defecar daquela maneira. Não era o modo mais confortável, mas era
preciso submeter-se a esse rito!
Fiquei logo preocupado, embora tivesse já ajudado pacientes do sexo masculino a fazer isso. As
coisas, vistas debaixo do lençol e com as nádegas bem mais altas do que as costas e a cabeça,
apareciam-me drasticamente diferentes e muito mais difíceis. Fiquei bloqueado só de pensar como
devia fazer em relação à necessidade menor. Tinha muito medo que a urina saísse da arrastadeira,
molhasse o lençol e me conspurcasse todo. Manifestei o meu embaraço a quem me ajudava, mas
não tive achegas. Veio-me à ideia pedir também o urinol, para dar às duas dejecções a
oportunidade de encontrar o justo acolhimento!
A coisa funcionou bem, mas o difícil veio no momento de retirar a arrastadeira e de proceder à
limpeza e à lavagem. A imobilidade que o compasso impunha à minha cabeça impedia qualquer
autonomia: devia pedir forçosamente que a pessoa que me assistia me fizesse tudo, limpar e lavar,
como se faz aos bebés.




10


Um dia o padre Madella anunciou-me que começaria a vir algumas vezes Dna. Gabriela, uma
senhora amiga da casa, que trabalhava na embaixada da Itália, no Maputo, há alguns anos.
Eu não a conhecia, mas foi fácil fazer amizade. Falámos bastante, eu para lhe contar da minha
actividade em Quelimane e ela para me fazer conhecer um pouco o mundo das embaixadas e das
missões diplomáticas e humanitárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, nas quais ela tinha
participado várias vezes. Era para mim uma realidade nova e fiquei encantado a ouvir falar de tantas
partes do mundo nas quais trabalhara.
A Dna. Gabriela ficou um pouco impressionada com a minha falta de apetite e como boa emiliana,
atribuiu espontaneamente a culpa à qualidade da dieta, pouco estimulante para um paladar italiano,
acostumado, desde a infância, a saborear pratos bem mais aliciantes do que um frango cozido na
água.
Dito e feito. Ligou imediatamente para a sua casa dando ordens ao cozinheiro para preparar um
prato de "cannelloni al ragù" e uma fatia de pizza caseira. A seguir localizou, sempre pelo telefone,
o seu filho Jorge, que tinha uma firma de transportes, para que trouxesse aao hospital aqueles pratos
até às treze horas, o mais tardar.
Foi assim que se abriu um parêntesis de paraíso gastronómico naquela estadia hospitalar! Quando
Jorge entrou e me mostrou, inclinando os pratos um pouco para que pudesse vislumbrar o aspecto
das comidas, senti a saliva começar a molhar-me a língua. Ataquei os "cannelloni" com
sofreguidão , mas não consegui chegar até ao fim. Da pizza provei só um bocado, e o resto ficou
para a merenda. Às quatro da tarde, não sobrou, dela, nem uma migalha!

Sempre que a Dna. Gabriela viesse, mandava trazer, à hora do almoço, uma das comidas típicas
italianas, que o seu cozinheiro tinha aprendido a fazer com a mesma habilidade de um chefe de
restaurante.
Uma vez que se deslocou por alguns dias à África do Sul, trouxe-me "mortadellas", chouriços e
queijos tradicionais da Itália, como "provolone" e "gorgonzola". Uma verdadeira delícia!




11


No quarto do primeiro piso havia , sobre a mesinha de cabeceira, um telefone interno, que podia
ligar-se com o PBX do Hospital Central e, através dele, com o exterior. Depois de dois ou três dias,
quando descobri essa possibilidade, pedi à irmã que me assistia, para ligar ao PBX e perguntar se
era possível fazer uma chamada para Itália.
-"Sim, basta ligar para a central internacional de telecomunicações e pedir a linha."
Quando veio o padre Madella, à noite, pedi-lhe para ligar para a minha irmã, pois o numero dela
tinha reaparecido na minha memória. Ele fez a chamada e passou-me o escutador, logo que
começou a dar sinal.
-"Pronto, chi parla?"- Perguntou Maria Teresa em italiano.
-"Sou eu, Aldo. Estou a telefonar-te do hospital do Maputo."
-"Como estás? Soubemos do acidente e estamos preocupadíssimos. Mas não dissemos nada aos
pais.
Diz-me lá como estás agora, se tens muitas dores, se podes mexer-te."
Contei-lhe em breve o estado actual e a minha situação de tracção craniana.
-"Tens uma voz que dá pena. Nem parece a tua."
-"A pancada foi forte, mas cada dia que passa estou a melhorar"
-"Dá-me o telefone do hospital e diz-me como se faz para poder falar contigo, assim posso chamar-
te daqui a alguns dias."
Dei-lhe o número, cumprimentamo-nos e desliguei.

Não acabaram dez minutos quando o telefone tocou.
O padre Madella atendeu e passou-me logo a linha.
-"Pronto? Sou André. Maria Teresa deu-me o teu número"

Era o meu irmão que queria sentir, ele também, a minha voz. Como fiquei contente que me tivesse
chamado!
Contei-lhe em duas palavras o que acontecera e, como era médico ele também, quis comunicar-lhe
o efeito analgésico intenso da associação diclofenac mais paracetamol.
Ao desligar, prometeu passar a chamar-me de vez em quando, depois de me ter confirmado que os
pais não sabiam ainda nada.

Um dia ou dois depois recebi de novo um telefonema da minha irmã para me dizer que a mãe estava
preocupada por eu não ter telefonado, como todos os anos, para apresentar os votos de bom
onomástico ao meu pai, na festa de S. Alberto, aos 15 de novembro. Queria pedir o meu parecer
acerca de uma forma para disfarçar o acontecido, sem que os pais suspeitassem do acidente. A sua
proposta era ela passar a escrever cartas em meu nome, fazendo de conta que as enviara à mão, por
um portador de regresso à Itália, aterrando em Milão. Ela ia buscar a carta ao secretariado das
missões e depois a enviava por fax aos pais.
A carta seria escrita à máquina e a assinatura fotocopiada de uma carta minha, antiga.
Pensava dizer que em Pebane, donde vinha, quando tive o acidente, tinha encontrado muitos
doentes e que devia ficar lá mais tempo, até concluir tudo. À tarde o p. Madella trouxe-me um fax
com a cópia da carta, para ver se o texto podia servir. Não foi preciso fazer nenhuma correção.

Na semana seguinte, quando minha irmã voltou a chamar-me, disse que tudo tinha corrido bem.
Entretanto iria meditar uma nova carta que pudesse justificar o silêncio e que impedisse à mãe de
me chamar por telefone, como de vez em quando fazia, para diminuir as saudades.



12


Os dias iam passando e a minha vida social ia-se enriquecendo com a visita de um número sempre
crescente de pessoas amigas.
Pouco a pouco as irmãs que tinham vindo assistir-me durante um turno, começaram a aparecer
várias vezes, conforme o tempo de que dispunham. Algumas eram recém chegadas a Moçambique e
estavam no período de ambientação nas suas comunidades de Maputo, outras viviam longe, mas
tinha calhado passar por Maputo por vários motivos. Se eram irmãs que me tinham conhecido em
algum lado, ofereciam-se de boa vontade ao padre Madella para cobrirem um turno, em nome da
velha amizade. Foi assim que a tracção com o compasso se transformou numa fonte de alegria
espiritual, pois nada há como a amizade sincera, para confortar o coração nos momentos difíceis.

Entre as recém chegadas, a mais livre de todas era a irmã Fanny, do Equador, das missionárias
dominicanas, um ramo jovem, brotado ainda neste século, do poderoso tronco de S. Domingos.
Essa congregação nascera, directamente, em território de missão, no Perú. A irmã Fanny era
licenciada em enfermagem e, portanto, sentia-se duplamente interpelada para dar o seu apoio
incondicionado, quer de dia quer nos turnos de noite. Falamos muito quando vinha assistir-me e tive
a ocasião de conhecer muitos aspectos da sua congregação.
Ela trouxe consigo várias vezes a irmã Regina, indiana, que acabava de chegar e que estava a
ambientar-se com grande dedicação e dom de si, apesar das dificuldades muito grandes que lhe
vinham por ser duma cultura tão diferente e por não saber ainda falar português. As suas irmãs da
casa sabiam só alguma palavra de inglês e a comunicação era mais por meio de gestos, olhares,
sorrisos e coisas parecidas. Como eu falava um pouco de inglês, nas horas que passava no meu
quarto falávamos naquela língua e eu me esforçava para lhe ensinar algumas expressões e palavras
em português. Tentava acompanhar os vocábulos portugueses com gestos e mimos, para que se
fixassem melhor na sua memória. Lembro-me ainda de duas expressões, que aprendeu tão bem, por
tê-las repetido inúmeras vezes e que logo se tinham tornado as primeiras duas com que iniciávamos
cada sessão de português.
A primeira era: "tirar óculos" e, ao dizer as palavras, ambos tirávamos os óculos. A seguir,
dizíamos: "pôr óculos" e voltávamos a colocá-los sobre o nariz.
A segunda era "padre Madella é gordo" e ao dizer isso, enchíamos as bochechas.

As irmãs dominicanas tinham uma casa de formação e o noviciado, um pouco fora de Maputo. Por
isso várias delas, da casa das junioras, vieram fazer turnos. A irmã que mais conhecia era Marivi, a
superiora , que tinha trabalhado bastantes anos em Quelimane. Apesar do seu tanto que fazer veio
muitas vezes, quer nos turnos, quer para trazer e buscar com o carro as da sua casa.

Outras irmãs tiveram ocasião de passar por Maputo naqueles dias. Entre elas queria lembrar a irmã
Beatriz, da congregação da Mãe do divino Pastor, que tinha conhecido em Tete. Quando eu
cheguei, ela estava para sair de vez do Maputo, transferida para uma missão muito longínqua. Os
preparativos não lhe deixavam tempo, com grande pena sua, para fazer um turno inteiro. Chegou à
véspera da saída sem ter podido realizar o seu desejo. Então que fez? Apareceu para me assistir
durante a noite, a única que tinha livre: a penúltima que passava em Maputo antes de sair!
Fiquei muito comovido por esse gesto de amizade.
Da mesma congregação passou a irmã Begônia, que não tinha mais encontrado desde os tempo do
Songo. Naqueles anos nos encontrávamos às vezes por estarmos em duas missões relativamente
perto.

Nos mesmos dias partiu também, para uma missão no outro extremo de Moçambique, a irmã
Lupita, enfermeira venezuelana, que tantos turnos tinha feito desde os primeiros dias, os mais
difíceis para mim.
Acerca desta irmã fiquei com uma certa tristeza, se se pode usar essa palavra neste caso concreto:
por não poder virar a minha cabeça, não tinha conseguido ver as suas feições, a não ser pelo canto
dos olhos, e, como não a conhecia antes, quando ela se foi embora, eu fiquei sem lembrança da sua
cara verdadeira.

No fim da segunda semana passou por Maputo, rumo a África do sul, a irmã Paquita, do Amor de
Deus.
Chegáramos a Moçambique pela primeira vez quase no mesmo dia, pouco menos de vinte e cinco
anos atrás, trabalháramos juntos na nossa primeira experiência missionária, no hospital de Mocuba.
Muitas vezes os nossos caminhos se separaram, se voltaram a cruzar, voltaram a separar-se e
voltaram a cruzar de novo. Era para mim uma irmã , no verdadeiro sentido da palavra.
Ela tinha trabalhado no Hospital Central do Maputo, no qual me encontrava de baixa, durante
muitos anos e conhecia praticamente todos os médicos e o pessoal de enfermagem. Vários anos
atrás ela também tinha sofrido um grave acidente, com fractura da base do crânio e tinha ficado
internada na mesma enfermaria. Era, esse, mais um motivo de vizinhança e de partilha.
Devia ir à África do sul daí a três ou quatro dias e tinha muitos afazeres no Hospital, pelo que
previa passar pelo meu quarto bastantes vezes associando-se à pessoa que me assistia e também
fazer alguns turnos, mais de noite, para aliviar as que viviam no Maputo e que tinham à frente ainda
quase quatro semanas de assistência..

Ela também era experta na massagem da planta dos pés, a reflexo-terapia, que praticava largamente
no centro de saúde das suas irmãs em Mocuba.
Logo que soube dos benefícios que eu tinha recebido por essa técnica, no tratamento da dor de
cabeça, ficou muito contenta e procurou falar com a irmã Lupita e a irmã Fanny para trocar
experiências e conhecimentos. Dado o bom sucesso comigo e considerando que a dor de cabeça
costumava ser intensa, especialmente de noite, tornou-se uma divulgadora activa da reflexo-terapia
com todas as pessoas que me assistiam.
Irmã Paquita era assim: uma vez individuada uma coisa que valia a pena, dedicava-se a ela com
todas as energias de que dispunha e, devo admitir, que as energias de que dispunha eram sempre
mais que aquelas que eu conseguisse imaginar!
Já no fim do primeiro dia começou a convencer-me que não podia ficar todo o dia imóvel na cama.
Era preciso fazer ginástica. Logo começou a mobilizar braços e pernas, activando todas as
articulações e estimulando-me a vencer o quietismo da cama. Não era, porém, muito fácil reagir
com aquele compasso que me prendia.
Com o abrandar das dores da extensão, tinham começado a aparecer, sempre mais frequentes e
intensas, as dores no crânio. O ponto de partida era o prego na região temporal direita. Ela
preocupou-se para examinar de perto o couro cabeludo. Pegou numa tesourinha e começou a cortar
o cabelo que impedia de ver bem. A pele estava toda avermelhada e inchada. O carregar com o dedo
fazía muito mal. Era evidente que estava a começar uma infecção.
Avisámos a doutora Teresa, que logo iniciou com os antibióticos e com o penso duas vezes por dia.
Naquela noite veio assistir-me a Dna. Ivety, da nossa casa, que também tinha aprendido a fazer a
massagem. Depois de uma hora ou duas com os olhos fechados, comecei a ter a sensação de ter
vários pregos que me atravessavam a cabeça de frente para trás e de um lado para o outro.
A sensação era tão real que fui várias vezes com a mão à cabeça para me certiificar de que não
havias e pregos espetados, mas apenas uma sensação produzida na consciência ofuscada pelo sono.
A Ivety , que me vigiava da cadeira de braços ao lado da cama, notou esses movimentos e me
perguntou se estava a sentir dores.
-"Parece-me ter pregos que me espetam a cabeça, mas é só uma impressão."
-"Dói muito?"
-"Dói."
-"Vou fazer-lhe a massajem."
Levantou-se,para os aos pés da cama e começou a massajar-me delicadamente, sem parar, a ponta
dos dedos do pé direito. Continuou em silêncio um bom tempo, com toda a paciência.
"Haverá no mundo alguém com mais assistência do que eu?" ia pensando, entretanto, dentro de
mim.
Depois de um bom quarto de hora comecei a sentir que os ferros se desfiziam, deixando a cabeça
livre. A dor estava a desaparecer.
-"Ivety, a dor está a passar!"- Quis dizer-lho logo, para que tivesse a satisfação do sucesso da sua
ajuda.
-"Estou muito contente!"- e continuou a massajar.
Não sei dizer quanto tempo ficou aí, porque logo adormeci profundamente.

No dia seguinte a irmã Paquita tinha muitas voltas a dar e passou várias vezes para ver como estava
e como andava a infecção. Anuncoiu-me que seria ela a fazer o turno daquela noite, pois na
madrugada do segundo dia, ia apanhar a carreira "Pantera Azul" que fazia serviço entre Maputo e
Johannesburgo, pelo que teria de ficar ausente alguns dias.

Chegou a tempo para me dar o jantar, mas vontade de comer eu não tinha nenhuma. A meio do
frango cozido pedi-lhe para parar. Admirou-me que não insistisse para me esforçar e fiquei muito
grato, mesmo sem abrir boca, por essa compreensão. Perguntou-me se queria comer a maçã cozida.
Essa, sim, podia entrar.
Lavei os dentes e pedi-lhe para que rezasse em voz alta a oração de completas.
Comecei a responder, mas, na semi-escuridão do quarto entrei num vai vem entre sono e vigília.
Quando viu que não respondia ficou à espera, para ver se eu acordava, para continuar ou para parar
de vez.
Dormi um tempo e, quando abri os olhos, vi que a irmã tinha ficado sentada ao pé da cama e estava
a olhar para mim. Quantas vezes tínhamos ficado a falar das coisas de Deus na capela ou sentados
em qualquer lado, ao longo dos tantos anos que durava a nossa amizade! Também essa noite teria
querido falar de coisas espirituais: tinha saudade das nossas conversações sem pressas. Disse-lhe
isso, mas acrescentei que a minha cabeça não conseguia ainda fazer pensamentos que valesse a pena
partilhar.
Pegou na minha mão e apertou-a.
-"Não te esforces, por amor de Deus! Olha, fica a pensar com a mão. Eu vou saber entender essa
linguagem."
Não acrescentei mais nenhuma palavra. Pensar com a mão era uma coisa tão boa… e não custava
fadiga nenhuma. Disso é que eu precisava!
Fiquei um bom tempo sem mais adormecer, comunicando por aquele meio tão simples.
Pouco a pouco começou, a ponta de direita, a se tornar duas e depois três e depois quatro.
Não soube reter-me de ir com a mão à cabeça.
-"Dói?"
-"Muito"
Sem dizer nada foi fazer-me a massagem. Como na noite anterior com Ivety, também desta vez,
pouco a pouco, fiquei aliviado. Logo adormeci.
Dormi um bom pedaço. Abri os olhos na penumbra da luzinha que entrava do corredor. A irmã
Paquita estava com a minha mão na sua. O sono tinha-a vencido e dormia na cadeira, com a cabeça
apoiada no colchão, ao lado da mão. Não lhe disse nada. Fiquei a escutar o que me estava a dizer
com a sua mão, durante o sono.




13


Naquele sábado voltava da Itália o padre Honório, o nosso superior regional de Moçambique.
Logo que saiu do aeroporto veio visitar-me, para ver com os seus olhos a minha situação. Na Itália
tinham ficado muito preocupados. Pediu para eu lhe contar todos os detalhes e, ao fazê-lo, não
consegui controlar a emoção. Já tinha reparado que, a falar de certos pormenores, a voz não
conseguia mais sair, porque a comoção me prendia a garganta.
Todavia consegui acabar, superando com um prolongado silêncio, vivido com grande respeito pelos
presentes, os momentos de comoção.
Ele também me contou da reunião internacional da congregação, na qual havia participado.
O dia seguinte era a festa de Cristo Rei, muito sentida por todos nós. Pedi se não podiam organizar
as coisas para celebrar a missa no quarto. O padre Madella, que estava connosco, encarregou-se dos
pormenores.
Fixámos a hora em volta das oito, quando a enfermaria estava sossegada e ainda não costumava
estar ninguém de visita no quarto.

No domingo, à hora marcada, preparou-se o quarto. Uma mesinha, ao lado da cama servia de altar.
O padre Honório, que presidia, vestiu a alva e a estola, ao passo que o padre Madella e eu usamos
apenas a estola. Como não era possível passá-la sob a minha cabeça, ficou apoiada sobre o peito.
Tinham vindo duas ou três irmãs que tinham sabido da celebração, de maneira que aquela missa, na
solenidade de Cristo Rei, não pôde ser mais solene do que ela foi. Este ficou um dos
acontecimentos mais queridos de toda a baixa.
Era já quase um mês que não celebrava a missa, pois no domingo do acidente o desastre alterou
todos os programas. Concelebrar com os confrades, com as irmãs e Ivety, com essa família restrita,
que partilhava comigo aquela situação, foi para mim um conforto muito grande, mas reparei que
não experimentei nenhuma alegria sensível: apenas uma satisfação interior que não entrava no
recesso dos sentimentos.
Fiquei a pensar nisso, depois de todos terem saído. Por um lado comovia-me por nada, ficando
impossibilitado de falar pelo nó na garganta que me fechava a voz. Por outro lado parecia-me ter
ficado um tanto sem sentimentos, sem coinvolvimento emotivo. Lembrei-me dos primeiros
instantes de consciência depois do acidente, de como não me senti com medo pelo perigo de morrer,
nem com pensamento algum sobre a minha vida ,não evocando nem o mal feito nem o bem.


Mesmo quando receei ter ficado com braços e pernas paralisados e fiz a prova de dar um respiro
profundo para testar os músculos do torax, fiz isso quase sem emoção. Só depois, dias mais tarde,
me dei conta de que aquele tinha sido o momento supremo da minha vida. Nos primeiros dias de
hospital o pensamento estava como preso na rede da dor. Passava horas a "escutar" o mal físico,
mas sem tristeza, nem rebelião. Estava ali, simplesmente, a olhar para o tecto do quarto,
esperando…
Era verdade: aquela indiferença emotiva pela primeira missa que acabara de celebrar tinha-me feito
descobrir que algo ficara alterado na minha maneira de ser.
Ao meio dia o padre Honório saiu e ficou só a Ivety, sempre pronta a preencher qualquer vaga nos
turnos, de dia ou de noite, de dia útil ou de feriado. A sua boa disposição e o seu optimismo
tornavam tudo uma coisa simples, em face da qual não era preciso preocupar-se: a solução era
sempre facilmente alcançável.
Naquela tarde de domingo as visitas foram, como sempre, numerosas. Perto do jantar o padre
Madella veio buscar a dona Ivety , para a levar para casa. Trazia um gelado, visto ser a festa de
Cristo Rei.
"Este gelado não é apenas para celebrar a solenidade de hoje, mas também para festejar uma grande
notícia: o nosso padre Tomé Makhwéliha foi eleito hoje Bispo de Pemba pelo Santo Padre!"
Padre Tomé tinha sido nomeado conselheiro geral da congregação alguns meses atrás, quando era o
nosso superior regional e, naquela altura, estava em Roma.
"Então daqui a pouco voltará para Moçambique." Disse eu.
"Sim, o Direito Canónico diz que os bispos nomeados devem ser consagrados dentro de três meses
da nomeação."
Fiquei particularmente contente, pois padre Tomé tinha ficado um ano comigo no Seminário de
teologia em Bolonha e íamos dar assistência pastoral na mesma paróquia de S.Carlos. Éramos
muito amigos e os meus pais conheciam-no também.


14


Na noite daquele domingo veio, como todos os domingos, a enfermeira Ana Maria, da companhia
missionária. Comentamos longamente a grande novidade do padre Tomé eleito bispo.
Com o passar dos dias os turnos de assistência estavam a tomar uma certa regularidade. Ana Maria
vinha todos os domingos à noite, a dona Gina, italiana que trabalhava no Maputo, todas as noites do
sábado, a irmã Teresa, espanhola das Filhas do Calvário, quase todas as tardes do domingo.
Uma irmã moçambicana, das diocesanas de Lichinga, irmã Carmela, já de uma certa idade, vinha
todas as semanas durante una manhã inteira. Era muito silenciosa, mas, como eu não conhecia nada
da diocese e cidade de Lichinga, aproveitava para lhe fazer muitas perguntas, de maneira que
ficamos amigos rapidamente.
Uma outra irmã que vinha muitas vezes era a ir. Daulisa, das Vitorianas. Conhecia-a desde há
muitos anos, por ter trabalhado em Quelimane. A sua alegria enchia o quarto e as horas do seu turno
voavam rápidas. Mas quando via que os meus olhos, a metade da manhã, começavam a ficar
fechados mais tempo do que o normal, pegava na cadeira e se sentava ao pé da parede do quarto,
onde os meus olhos não podiam chegar, nem que arriscassem o estrabismo.
" O padre tem sono. É bom dormir mais um pouco: ajuda-lhe a recuperar mais depressa." E assim
dizendo ficava calada e sem fazer nenhum ruído, de maneira que o sono se apoderava de mim
durante mais uma hora ou duas.

Não faltavam também os visitantes ilustres.
Dom Alexandre, o Cardeal do Maputo veio bem duas vezes, ficando a conversar amavelmente e
acabando sempre com a sua bênção. Vieram também o bispo de Quelimane, Dom Bernardo e o
secretário da conferência episcopal Dom Januário.

Um dia veio o motorista do embaixador da Itália.
"Sua excelência mandou-me para reconhecer o seu quarto, para eu o acompanhar aqui um dia
destes, logo que tiver uma folga."
Tinha conhecido o embaixador em Quelimane, poucos anos antes, durante uma visita à província da
Zambézia. Era muito cordial e com ele a conversa conseguia manter-se vivaz até ao fim.
Chegou dois dias depois, pouco antes do meio dia.
"Padre Marchesini, fez-nos ficar todos muito preocupados! Quero que me conte tudo, em
pormenor."
E, assim dizendo, tirou o casaco, arregaçou as mangas, pegou na cadeira e sentou-se ao pé da cama.
Contei pormenorizadamente, interrompido e impelido pelas sua muitas perguntas.
A um certo ponto o encarregado da cozinha bateu à porta e entrou com o almoço: galinha cozida e
coves de água e sal.
O embaixador ficou um pouco surpreendido pela dieta pouco apetitosa.
"Custa-me muito comer. - disse eu - Não tenho apetite nenhum e a digestão também è difícil. Por
isso como em branco"
"Não gostaria um pouco de boa comida italiana? Lasanhas ou canelões, um pouco de salame ou
beringelas à siciliana? Se o hospital preparasse comidas dessas, aposto que o apetite voltaria
depressa! Se aceitar, queria mandar-lhe, de vez em quando um bom prato italiano: na embaixada
temos um excelente cozinheiro!"
Cumprimentou-me com efusão e saiu.
No dia seguinte, ao meio dia, veio o seu motorista com um cesto de canelões ao forno e beringelas à
siciliana. Eram excelentes, mas depois de poucos bocados, fiquei logo satisfeito e não consegui
acabar. Mas a minha gratidão para o embaixador ficou na mesma muito alta!

Até o Primeiro Ministro, o meu antigo colega Dr. Pascoal Mocumbi, ginecologista, com o qual tive
a ocasião de operar juntos, lembrou-se de mim e apareceu um dia, logo depois do almoço.
Bateu à porta e, à irmã que lhe abriu disse:
"Dá-me licença minha irmã, que possa entrar para saudar o meu antigo amigo Dr. Marchesini?"
Ficou poucos minutos, mas a sua visita alegrou-me bastante, não tanto por ser o Primeiro Ministro,
mas porque se tinha lembrado de mim, quando já lá iam bastantes anos sem nos vermos.
Também o Vice-Ministro da saúde veio ficar comigo um pouco, e depois colegas cirurgiões,
funcionários do ministério, antigos amigos queridos. Entre eles queria lembrar em maneira especial
a Dra. Pura, brasileira do departamento de formação. Veio várias vezes, sempre trazendo um livro
de leitura "para ajudar a passar as horas", dizia entregando-mos com um sorriso.
As suas prendas levantaram um problema: ler um livro deitado na cama, com a cabeça presa e
fixada sobre o plano do lençol era uma coisa que cansava muito: devia segurar o livro com as duas
mãos levantadas, numa posição que não podia durar mais de poucos minutos.
Quem me resolveu o problema foi o Dr. Barradas, cirurgião plástico, amigo desde os primeiros anos
de Moçambique, quando ele trabalhava em Nampula. Teve a ideia de esticar três cordas entre a
barra da cabeceira e a dos pés da cama. A sua distância dos olhos era justa, para conseguir ler,
enquanto que as cordas substituíam as mãos a segurar o peso do livro.
Apresentei a ideia ao padre Madella, que, depois de poucas horas, voltou com um sistema de cordas
já montado, que carecia apenas de ser fixado à cama.
Esta novidade trouxe nova energia para conseguir passar mais confortavelmente as semanas que
ainda faltavam para completar o tempo de tracção.


15

Estava a acabar o primeiro mês e já me estava habituando àquela vida de imobilização.
Depois dos primeiros dez ou doze dias sem fazer necessidade maior, tinha recomeçado a ter o
intestino funcionando.
Tudo correu bem por quase duas semanas, depois, um dia não senti nenhum estímulo. Preocupado,
falei disso com a doutora Teresa Couto, a minha assistente.
"O doutor tem que beber muito! Bebe pelo menos dois litros de líquidos fora das refeições, cada
dia? Nessa posição é muito difícil fazer necessidade maior. É preciso manter as fezes moles e, para
isso, é necessário introduzir no intestino muita água, para manter mole o seu conteúdo."
"Já bebo todos os dias dois litros de chá placate."
"Então beba três!" exclamou com a vivacidade típica da sua maneira de ser.
Aumentei o volume das bebidas, acrescentando sumos de fruta, mas nada a fazer!

O problema da minha prisão de ventre deu a volta de todas as comunidades de irmãs da cidade.
Recebi as mais diversas sugestões, fruto de varias tradições de medicina caseira.
Comecei a comer as papaias com sementes três vezes por dia.
Uma irmã ensinou-me a beber uma colher de óleo, das de sopa e bem cheia, no fim de cada
refeição. Parecia-me ter voltado aos tempos da infância, durante a grande guerra, quando a nós
crianças era dada, todas as noites, uma colher cheia de óleo de fígado de bacalhau. Que penitência!
Quando era inverno, ainda vá lá, que logo a seguir comíamos uma tangerina…
Aqui, para aliviar aquela situação desagradável, bebia logo a seguir um copo de chá placate, mas o
resultado não era uma grande coisa, pois o óleo não era solúvel em água e a boca ficava ungida
mais tempo.
Uma outra irmã trouxe-me um frasco de mel. Para ser eficaz devia-se tomar uma colher em jejum.
Pensando que uma colher de óleo não podia quebrar o jejum, comecei a tomar o mel logo a seguir
ao óleo e a união destes dois remédios tornou a medicação até "quase agradável".

O intestino começou a mexer-se mais e sentia urgente o estímulo. Era preciso colocar a arrastadeira
a correr, porque as contracções eram imperiosas. Mas o resultado era sempre nulo.
Parecia-me que houvesse um aperto que impedia a saída. Fazia esforços intensíssimos, repetidos,
por um impulso incoercível. Nada!
Com grande desilusão, desistia. Passado menos duma hora sentia outra vez a urgência. De novo
esforços, mas sempre em vão.
Assim passou um dia e meio. Comecei a ser apanhado por uma sensação de impotência, de ter
ficado como escravo duma força invencível. Parecia-me ter voltado à extrema angústia do pesadelo
das camisas pregadas no relvado.
Lembrava-me dos meus pacientes, especialmente dos paraplégicos, que tanto se queixavam comigo
da mesma impossibilidade. Nunca tinha dado grande importância ao problema, considerando-o
marginal e de pouca importância.
Mas agora que o paciente era eu, como diferente me parecia a situação!
Era essa a primeira coisa que dizia aos visitantes mais chegados, era esse o sofrimento que ocupava
o inteiro horizonte dos meus pensamentos.
Não sei dizer agora se essa depressão era mais efeito do sofrimento específico ou da fragilidade
emotiva devida à pancada na cabeça. Uma coisa, porém, era certa: a consciência de estar eu em
culpa perante os meus pacientes, por não ter sabido dar a esse sofrimento o peso que merecia.
Quando passou a Dra. Teresa apresentei-lhe toda a minha aflição e angústia, pedindo que fizesse
algo para me tirar dessa situação. Optou para um supositório de glicerina.

Passados dez minutos apareceu uma das enfermeiras com o tal remédio. Deu-me instrução para
tentar retê-lo durante, pelo menos, uma meia hora.
Assim fiz e até esperei mais um pouco, na convicção de que o resultado fosse proporcional à espera.
Quando, no fim, pedi à irmã que me assistia, que me trouxesse a arrastadeira, parecia-me estar a
viver um dos momentos supremos da minha vida. A tal ponto chega a ansiedade dum doente nas
coisas que o fazem sofrer! Quantas lições estava eu a receber da minha situação…
O esforço foi grande, mas o resultado confortou-me e durante o dia consegui libertar-me por
completo.



16

O mês de dezembro, com o início do Advento, a festa da Imaculada Conceição e o aproximar-se do
Natal, trouxe consigo um espírito novo que ajudava para os dias passarem mais rápidos. Amigos
antigos tiveram ocasião de passar por Maputo ou de regresserem de viagens no estrangeiro. Entre
estes últimos veio o Prof. Fernando Vaz, amigo dos primeiros anos e decano de todos os cirurgiões
de Moçambique. Ficou a conversar comigo sobre o andamento da cirurgia no País e sobre projectos
e novidades. Tudo isso me fez bem: ajudava-me para eu me considerar ainda parte activa da
categoria dos que passam a sua vida a operar doentes e a acompanhá-los, quase pela mão, através
da experiência um tanto traumática de serem cortados no próprio corpo.

Uma manhã entrou no meu quarto o Técnico de cirurgia Gabriel, que trabalhava comigo em
Quelimane. A surpresa foi grande e agradável! Era a primeira pessoa que vinha do meu ambiente de
trabalho, distante agora mais de mil quilómetros. Encontrava-se no Maputo para consultas de
alergologia e as coisas parecia que iriam demorar muito, pois devia fazer uma série de testes
sofisticados, cujas amostras iam ser enviadas para a África do Sul. A nossa amizade era muito
antiga e ficamos a falar demoradamente. Prometeu voltar mais vezes, sempre que passasse pelo
Hospital Central.

De vez em quando passavam a saudar-me os alunos de instrumentação e anestesia originários da
Zambézia, que estavam no Maputo há um ano, para tirar o curso de especialização. Foram eles que
me informaram que na cidade tinha alastrado uma epidemia de cólera, bastante severa. Tinham
preparado instalações de emergência para servirem de enfermarias de isolamento e tinham
interrompido todos os cursos de especialização para enviar esses alunos , como pessoal com boa
professionalidade, para assistirem os colerosos. Eles vinham visitar-me ao saírem dos turnos, depois
das 13 ou das 19 horas: ouviam as minhas novidades e eu recebia informações sobre o andamento
da epidemia.

Através deles o lugar onde eu estava hospitalizado tornou-se muito conhecido entre o pessoal
técnico do Hospital Central. Um dia veio a instrumentista Isabelinha, que trabalhara comigo nos 4
anos do Songo, ao pé da barragem de Cahora Bassa. Desde há muitos anos estava no Maputo e
agora era a chefe do bloco operatório da Maternidade. Lembrámos muitas coisas do passado e dos
bons tempos do Songo, quando ambos tínhamos vinte anos a menos!
Daí começou a vir bastantes vezes, trazendo quase sempre consigo alguma das suas colegas que
estavam curiosas para me conhecer.

Aos meados de dezembro chegou ao Maputo o padre Tomé, nomeado bispo de Pemba. Logo no
primeiro dia do seu regresso veio visitar-me e ficou comigo mais de uma hora. A sua visita fez-me
bem e contribuiu para aumentar o contentamento interior. Além dos pormenores do acidente,
falámos de como recebeu a notícia da sua eleição e do segredo a que era vinculado até a nomeação
se tornar pública: originara-lhe não poucas situações embaraçosas!
Voltou todos os dias em que ficou no Maputo e este gesto de amizade antiga confortou-me bastante.

A vida social ia aumentando cada vez mais. Estavam a correr, no Maputo, as sessões da Assembleia
da República, o Parlamento de Moçambique. Vários deputados eram de Quelimane e, ao sair das
reuniões, lá por volta das 18 horas apareciam em grupinhos. Um deles, o Sr. Iqbal, prontificou-se
para me trazer uma publicação com todos os pormenores dos comprimentos de onda e dos horários
de todas as estações emissoras do mundo, para eu me poder sintonizar com os programas nas
línguas italiana e portuguesa. A partir daí foi possível alargar muito o acompanhamento dos
acontecimentos da família humana.

Pouco antes das férias do Natal e da passagem do ano chegou a cumprimentar-me um grupo de
deputados da Frelimo com o seu chefe da bancada Zambeziana, o Major General Gruveta.
Estávamos ainda no meio das conversas quando apareceu também um grupinho da Renamo com o
chefe deles da Zambézia, o Dr. Aloni. Fiquei um tanto embaraçado, mas logo esse receio
desapareceu, pois saudaram-se com efusão e ficaram todos a falar à vontade, como velhos amigos
que eram.


17


Aproximava-se o 22 de dezembro, o último da sexta semana, data estabelecida para retirar o
compasso. A Dra. Teresa veio dizer-me que dentro de dias iria ser levado para os Rx a fim de fazer
uma radiografia de controle.
Entretanto tinha chegado da Itália, com o Pe António, o secretário das Missões, um colar para eu
usar depois de tirar a tracção. Deveria usá-lo durante, pelo menos, mais um mês para consolidar o
calo ósseo. Quem o procurou e mo enviou foi um meu caríssimo amigo: o Dr. Pino Meo de Turim,
que tinha ficado comigo em Quelimane uns quinze dias, em Janeiro do ano anterior, para fazer um
pouco de prática na cirurgia das fístulas vescico-vaginais. Desde há mais de um quarto de século
costumava passar um mês ou dois por ano a operar em hospitais primitivos, feitos de lodo e de
palha nas zonas mais pobres e abandonadas da África, perto dos confins entre Sudão do Sul, o
Kénya e o Uganda. Alí havia muitas mulheres com esse problema cirúrgico, típico das zonas onde a
assistência aos partos era muito escassa. Visto que em Quelimane eu operava muitas dessas
mulheres, pediu-me para me acompanhar um pouco.
O colar do Dr. Pino parecia ter sido desenhado para o meu pescoço: era da medida certa, ligeiro e
ao mesmo tempo bem rígido.

No dia estabelecido entraram no meu quarto a chefe da enfermaria, acompanhada por quatro
serventes que traziam uma maca, para me transportarem ao serviço de Radiologia.
Puseram-me o colar em volta do pescoço e desconetaram o peso do compasso. Passaram-me para a
maca e transportaram-me pelas escadas abaixo até ao Rés-do-chão. Aqui puseram suporte com
rodas e fomos por corredores e salas de espera até aos Rx.
Depois de regressar daí, a Dra Teresa veio dizer-me, à tarde, que as radiografias mostravam um
discreto calo, pelo que confirmava que no dia 22 se podia tirar a tracção.

A vigília do dia do fim da tracção era domingo e coincidia com o aniversário da minha ordenação
sacerdotal. Pedi ao Pe. Madella se era possível organizar para celebrar a missa no quarto. Ele
também tinha sido ordenado no mesmo dia 21 de dezembro, no ano anterior ao meu. Com todo o
gosto iria organizar as coisas para vir concelebrar ele também.
Ficou combinado pelas 11 horas, depois dele regressar da paróquia onde ia fazer serviço pastoral
aos domingos. Vieram também algumas irmãs e a Dna. Ivety.
A eucaristia foi muito intensa, pois os motivos para agradecer a Deus eram bem mais do que
celebrar simplesmente o aniversário. A vida tinha-me sido conservada e quase voltava a ser-me
entregue pela segunda vez, com o simbolismo de me desligar da prisão da tracção e me pôr em
liberdade. Qual coincidência podia ser mais significativa do que isso acontecer na mesma data em
que começara a viver como sacerdote?

As pessoas amigas que vieram à tarde congratularam-se todas comigo por ter chegado ao termo das
seis semanas e pelo facto da libertação coincidir com o meu aniversário de padre.


18

A manhã seguinte fiquei à espera da vinda da Dra. Teresa, que me devia tirar o compasso da
cabeça.
Entrou com a chefe da enfermaria e outra enfermeira. Puseram-me o colar para o pescoço ficar
seguro e, a seguir, chegou o momento tão esperado de tirar as pontas do compasso.
O corpo, ao tirar a tracção, deu conta de uma mudança importante, como se do barco onde tinha
navegado até então, tivesse sido deitado na água para continuar a fluctuar apenas com as minhas
forças. A tracção, com efeito, dava-me uma certa impressão de estabilidade e de consistência. A
partir daí, essa consistência devia ser fornecida ao meu corpo apenas pela minha força muscular.

A doutora encorajou-me para eu me sentar na cama. Tentei levantar-me, mas o tronco não obedeceu
às ordens. Parecia-me que os músculos tivessem desaparecido. Fiquei deitado na cama, com minha
grande decepção. Pegaram-me pelos braços, de um lado e do outro, e me sentaram.
“Segure-se com as mãos aos ferros dos pés da cama” sugeriu a doutora.
Tentei levantar os braços com a mesma energia que era necessária antes do acidente. Os braços não
subiram. Fiz um esforço poderoso, como se tivesse que levantar um balde cheio de água. Consegui
segurar com as mãos o ferro transversal no fundo da cama. Fiquei apoiado para descansar um
pouco.
Como tinha mudado o mundo em apenas seis semanas! Percebi que o que me parecia, dantes, coisa
natural, devia agora ser conquistada com o empenho dum treino não pequeno.
Fui ajudado a virar-me de noventa graus para descer da cama e apoiar os pés no chão. As vertigens
me imobilizaram. Fechei os olhos pondo uma mão sobre eles, como para me segurar até recuperar a
normalidade. As vertigens não duraram mais de meio minuto. Abri os olhos: tudo acabara!
Desci, preparado a ter dificuldades também nisso. Mas foram muito menos do que temia. De pé
conseguia ficar.
”Com alguma dificuldade, mas a coisa vai!” comentei sorrindo aos presentes.
Fiquei um minuto ou dois e depois voltei a deitar-me.
“Deve começar aos poucos. - disse-me a Dra. Teresa - Levante-se e deite-se duas ou três vezes cada
hora. Irá voltar a habituar-se progressivamente.”
Fiquei sozinho com a irmã Carmela, que me assistia. Passado um pouco de tempo pedi o seu apoio
para tentar chegar até à cadeira que estava contra a parede do quarto.
As dificuldades, agora que já conhecia as minhas forças, foram mais fáceis de superar. Mas as
vertigens voltaram idênticas, ao fazer os mesmos movimentos de antes.
Entrou, nesse momento, o técnico de cirurgia Gabriel, que logo me ajudou a acomodar na cadeira.
Começamos a conversar e a comentar as novidades que tinha descoberto no meu corpo.
Depois de poucos minutos comecei a sentir una espécie de enjôo e a suar frio. A vista estava a
esbranquecer.
“Gabriel, deite-me na cama, por favor! Estou a sentir-me desmaiar”
Logo o técnico Gabriel me levantou em peso e me depositou na cama. Rapidamente o suor frio se
acalmou e também o enjôo parou.
“Preciso recuperar o controlo automático da tensão, quando passar da posição deitada para aquela
erecta – comentei com o Gabriel e a irmã.- Isto è natural.”

Fiquei na cama um bom pedaço e, antes do Gabriel ir embora, pedi para que me ajudasse a sair para
o corredor. Vivia alí desde mais de um mês, mas tudo me parecia novo e bem diferente de como
tinha imaginado na minha mente. Fiquei surpreendido ao ver que as dimensões do quarto eram, em
fim de contas, muito mais reduzidas das que me pareciam de deitado. Com a cabeça presa no
compasso, o quarto aparecia, aos meus olhos, muito grande. A cadeira tão longe, contra a parede, na
qual as irmãs que me assistiam se sentavam e que estava fora do meu campo visual, a uma boa
distância, encontrava-se, afinal, bem perto da cama.

Vi finalmente o quarto de banho, pequeno, como todos os quartos de banho privativos dos
hospitais. Surpreendeu-me a planta, bem diferente da que eu imaginava.
Estas experiências fizeram-me reflectir: quantas vezes terá acontecido que dei por reais coisas que,
afinal, não tinha nunca visto, mas só imaginado?

A irmã abriu a porta e o Gabriel ajudou-me a sair, pegando-me por um braço com toda a força,
lembrando-se do início do desmaio de pouco antes.
Saímos para o corredor e a primeira coisa que vi, através das janelas, foi um rectângulo grande de
céu sereno.
Surpreendeu-me e tocou-me no profundo do meu ser. Que criatura incomparável era ele e com que
extraordinária beleza se mostrava para mim!
Como pudera acontecer, que me tivesse esquecido dele nessas semanas?
Fiquei, como que encantado, a olhar para ele. O meu espírito soltou-se e começou a atravessá-lo
voando nele com toda à vontade, da mesma forma como devia ter feito a pomba que Noé soltou
depois do dilúvio universal.
Indiquei-o com a mão aos dois meus assistentes.
“Olhem, olhem!- disse quase gritando – olhem: o céu azul!”



FIM

Maputo, aos 3 de março de 2001 (22h20)


Aldo























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( modificato in data 22-4-2013)
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